![]() |
| O governo central seria uma espécie de monstro - o Leviatã |
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Thomas Hobbes: O Lobo do Homem
Podemos entender
por que Hobbes é, com Maquiavel e em certa medida Rousseau, um dos pensadores
mais "malditos" da história da filosofia política - pois, no século
XVII, o termo "hobbista", é quase tão ofensivo quanto
"maquiavélico". Não é só porque apresenta o Estado como monstruoso, e
o homem como belicoso, rompendo com a confortadora imagem aristotélica do bom
governante e do indivíduo de boa natureza. Não é só porque subordina a religião
ao poder político. Mas é também porque nega um direito natural ou sagrado do
indivíduo à propriedade.
No seu tempo, e
ainda hoje, a burguesia vai procurar fundar a propriedade privada num direito
anterior e superior ao Estado: por isso ela endossará Locke, dizendo que a
finalidade do poder público consiste em proteger a propriedade. Um direito aos
bens que dependa do beneplácito do governante vai frontalmente contra a
pretensão da burguesia a controlar, enquanto classe, o poder de Estado; e, como
isso é o que vai acontecer na Inglaterra após a Revolução Gloriosa (1688), o
pensamento hobbesiano não terá campo de aplicação em seu
próprio país, nem em nenhum outro.
O resultado pode
parecer frustrante, para um pensador que escreveu as três versões de sua filosofia
política enquanto o seu país vivia terrível guerra civil (De corpore
politico, 1640; De cive, 1642; Leviatã, 1651), e considerava que
esses livros ofereciam a única base para fundar um Estado que desse, aos
homens, não apenas a sobrevivência, mas a melhor condição material - paz e
conforto.
"A
ciência política não é mais antiga que meu livro De cive", disse
Hobbes, desqualificando em especial o pensamento aristotélico, então ainda
dominante, mas que para ele era sem medita a tamanha grosseria ali exposta, na
obra de Aristóteles, de tal modo que não poderia sequer ser considerada ciência
politica. E apesar da inúmeras criticas feita a teoria de Hobbes, ainda hoje
ele é um pensador importantíssimo para a ciência politica, pois ele tal como
Maquiavel, foi um dos primeiros que indicou um caminho a ser percorrido, numa
tentativa de avaliar as coisas tais como são e não como gostaríamos que fosse,
e a partir dai fundamenta um Estado com base nessas premissas.
Hobbes: o medo e a
esperança
Hobbes é um contratualista,
quer dizer, um daqueles filósofos que, entre o século XVI e o XVIII
(basicamente), afirmaram que a origem do Estado e/ou da sociedade está num
contrato: os homens viveriam, naturalmente, sem poder e sem organização - que
somente surgiriam depois de um pacto firmado por eles, estabelecendo as regras
de convívio social e de subordinação política.
Sir Henry Maine
- por exemplo - criticou-os asperamente: Seria impossível, dizia ele,
selvagens que nunca tiveram contato social dominarem a tal ponto a linguagem,
conhecerem uma noção jurídica tão abstrata quanto a de contrato, para que
pudessem se reunir nas clareiras das florestas e fazerem um pacto social. Na
verdade, o contrato só é possível quando há noções que nascem de uma longa
experiência da vida em sociedade - Mas é preciso ver que erro Maine cometeu:
Raro, ou nenhum, contratualista pensou que selvagens isolados se juntam numa
clareira para fazer um simulacro de constituinte. Voltaremos a isso depois, por ora, tenha isso em mente: o homem natural
de Hobbes não é um selvagem. É o mesmo homem que vive em sociedade. Melhor
dizendo, a natureza do homem não muda conforme o tempo, ou a história, ou a
vida social, para Hobbes, como para a maior parte dos autores de antes do
século XVIII, não existe a história entendida como transformadora dos homens.
Estes não mudam. É por isso que Hobbes, e outros, citam os gregos e romanos
quando querem conhecer ou exemplificar algo sobre o homem, mesmo e seu tempo.
Mas, afinal como
o homem é naturalmente para Hobbes? Segundo ele "A natureza fez os homens tão
iguais, quanto ás capacidades do corpo (físico) e do espírito
(intelectualmente), que, embora por vezes se encontre um homem manifestamente
mais forte de corpo ou de espírito mais vivo do que outro, mesmo assim, quando
se considera tudo isso em conjunto, a diferença entre um e outro homem não é
suficientemente considerável para que qualquer um possa com base nela reclamar
qualquer benefício a si próprio que outro também não possa aspirar. Porque quanto à força corporal o mais
fraco tem força suficiente para matar o mais forte, quer por secreta
maquinação, quer aliando-se com outros que se encontrem ameaçados pelo mesmo
perigo. E Quanto ás faculdades do espírito ele encontra entre os homens uma
igualdade ainda maior do que a igualdade de força. Porque ás faculdades de
espirito nada mais é do que experiência, que um tempo igual igualmente
oferece a todos os homens, naquelas coisas a que igualmente se dedicam.
Para Hobbes, o
que talvez possa tornar inaceitável essa ideias entre os homens, é que essa
igualdade é simplesmente a concepção vaidosa da própria sabedoria, a qual quase
todos os homens supõe possuir em maior grau do que o vulto; quer dizer, em
maior grau do que todos menos eles próprios, e alguns outros que, ou devido à
fama ou devido a concordarem com eles, merecem sua aprovação. Pois a natureza dos homens é tal
que, embora sejam capazes de reconhecer em muitos outros maior inteligência,
maior eloquência ou maior saber, dificilmente acreditam que haja muitos tão
sábios como eles próprios; porque vêem sua própria sabedoria bem de perto, e a
dos outros homens à distância. Mas isto prova que os homens são iguais quanto a
esse ponto, e não que sejam desiguais.
É importante
ressaltar que ele não afirma que os homens são absolutamente
iguais, mas que são "tão iguais que...": iguais o bastante para que
nenhum possa triunfar de maneira total sobre outro.
Todo homem é
opaco aos olhos de seu semelhante - eu
não sei o que o outro deseja, e por isso tenho que fazer uma suposição de qual
será a sua atitude mais prudente, mais razoável. Como ele também não sabe o que
quero, também é forçado a supor o que farei. Dessa suposições recíprocas,
decorre que geralmente o mais razoável para cada um é atacar o outro, ou para
vencê-lo, ou simplesmente para evita um ataque possível: assim a guerra se
generaliza entre os homens. Por
isso, se não há um Estado controlando e reprimindo, fazer a guerra contra os
outros é a atitude mais racional que eu posso adotar. É preciso enfatizar
esse ponto, para ninguém pensar que o "homem lobo do homem", em
guerra contra todos, é um anormal; suas ações e cálculos são os únicos
racionais, no estado de natureza para Hobbes.
Da igualdade
quanto à capacidade de força e de espirito deriva a igualdade quanto á
esperança de atingirmos
nossos fins. Portanto se dois homens desejam a mesma coisa, ao mesmo tempo que
é impossível ela ser gozada por ambos, eles tornam-se inimigos. E no caminho
para seu fim (que é principalmente sua própria conservação, e às vezes apenas
seu deleite) esforçam-se por se destruir ou subjugar um ao outro.
E disto se segue
quando um invasor nada mais tem a recear do poder de um único outro homem, ou
seja, se alguém planta, semeia, constrói ou possui um lugar conveniente, é
provavelmente de esperar que outros venham preparados com forças conjugadas,
para desapossá-lo e privá-lo, não apenas do fruto de seu trabalho, mas também
de sua vida e de sua liberdade. Por sua vez, o invasor ficará no mesmo perigo
em relação aos outros. E contra esta desconfiança de uns em relação aos outros,
nenhuma maneira de se estar garantido é tão razoável como a antecipação;
isto é, pela força ou pela astúcia, subjugar as pessoas de todos os homens que
puder, durante o tempo necessário para chegar ao momento em que não veja
qualquer outro poder suficientemente grande para ameaçá-lo, atacando primeiro antes
de ser atacado. E isto não é mais do que sua própria conservação exige,
conforme é geralmente admitido. Também
por causa de alguns que, comprazendo-se em contemplar seu próprio poder nos
atos de conquista, levam estes atos mais longe do que sua segurança exige, se
outros que, do contrário, se contentariam em manter-se tranqüilamente dentro de
modestos limites, não aumentarem seu poder por meio de invasões, eles serão
incapazes de subsistir durante muito tempo, se se limitarem apenas a uma
atitude de defesa. Consequentemente
esse aumento do domínio sobre os homens, sendo necessário para a conservação de
cada um, deveria ser por todos admitido.
E dessa forma,
os homens não tiram prazer algum da companhia uns dos outros (e sim, pelo
contrário, um enorme desprazer), quando não existe um poder capaz de manter a
todos em respeito, porque cada um pretende que seu companheiro lhe atribua o
mesmo valor que ele se atribui a si próprio, e ainda de modo que na natureza do
homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição,
segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória. A primeira leva os homens a
atacar os outros tendo em vista o lucro; a segunda, a segurança; e a terceira,
a reputação. Os primeiros usam a violência para se tornarem senhores das
pessoas, mulheres, filhos e rebanhos dos outros homens; os segundos, para
defende-se por antecipação ou por segurança; e os terceiros por ninharias, como
uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de
desprezo, quer seja diretamente dirigido a suas pessoas, quer indiretamente a
seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome.
Com isto se
torna manifesto que durante o tempo em que os homens vivem sem um poder comum
capaz de os manter a todos em respeito, em ordem eles se encontrarão naquela
condição a que se chama guerra; e uma guerra que é de todos os homens contra
todos os homens. Pois a guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de
lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é
suficientemente conhecida e provável, portanto, para Hobbes, a noção de tempo
deve ser levada em conta quanto á natureza da guerra, do mesmo modo que quanto
à natureza do clima. Porque
tal como a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas
numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a
natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para
tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário.
Hobbes tem perfeita
consciência de que essa definição há de chocar seus leitores, que se prendem à
definição aristotélica do homem como zoon politikon, animal social.
Para Aristóteles, o homem naturalmente vive em sociedade, e só desenvolve todas
as suas potencialidades dentro do Estado. Esta é a convicção da maioria das
pessoas, que preferem fechar os olhos à tensão que há na convivência com os
demais homens, e conceber a relação social como harmônica. Por isso Hobbes
acrescenta um apelo á experiência pessoal:
“Que seja,
portanto, a considerar-se a si mesmo, que quando empreende uma viagem se arma e
procura ir bem acompanhado; que quando vai dormir fecha suas portas; que mesmo
quando está em casa tranca seus cofres; e isto mesmo sabendo que existem leis e
funcionários públicos armados, prontos a vingar qualquer injúria que lhe possa
ser feita. Então que opinião tem ele de seus compatriotas, ao viajar armado; de
seus concidadãos, ao fechar suas portas; e de seus filhos e servidores, quando
tranca seus cofres? Não significa isso acusar tanto a humanidade com seus atos
como eu o faço com minhas palavras? Mas nenhum de nós acusa com isso a natureza
humana.” - O que Hobbes
pede, então, é um exame de consciência: - "conhece-te a ti mesmo".
Estamos
carregados de preconceitos que vêm basicamente de Aristóteles e da filosofia
escolástica medieval. Mas o mito de que o homem é sociável por natureza nos
impede de identificar onde está o conflito, e de contê-lo. A política só será
uma ciência se soubermos como o homem é de fato, e não na ilusão; e só com a
ciência política será possível construirmos Estados que se sustentem, em vez de
tornarem permanente a guerra civil.
Há um ditado que
ultimamente tem sido muito usado; que a sabedoria não se adquire pela leitura
dos livros, mas do homem. Em consequência do que aquelas pessoas, que regra
geral são incapazes de apresentar outras provas de sua sabedoria, comprazem-se
em mostrar o que pensam ter lido nos homens, através de impiedosas censuras que
fazem umas às outras, por trás das costas. Mas há um outro ditado que
ultimamente não tem sido compreendido, graças ao qual os homens poderiam
realmente aprender a ler-se uns aos outros, se se dessem ao trabalho de
fazê-lo: isto é, Nosce te ipsum, "Lê-te a ti mesmo". Ensinar-nos
que, a partir da semelhança entre os pensamentos e paixões dos diferentes
homens, quem quer que olhe para dentro de si mesmo, e examine o que faz quando
pensa, opina, raciocina, espera, receia etc., e por que motivos o faz, poderá
por esse meio ler e conhecer quais são os pensamentos e paixões de todos os
outros homens, em circunstâncias idênticas. Refiro-me á semelhança das paixões,
que são as mesmas em todos os homens, desejo, medo, esperança etc., e não à
semelhança dos objetos das paixões, que são as coisas desejadas, temidas,
esperadas etc.
A constituição
individual e a educação de cada um são tão variáveis, e são tão fáceis de
ocultar a nosso conhecimento, que os caracteres do coração humano, emaranhados
e confusos como são, devido à dissimulação, à mentira, ao fingimento e às
doutrinas errôneas, só se tornam legíveis para quem investiga os corações. E,
embora por vezes descubramos os desígnios dos homens através de suas ações,
tentar fazê-lo sem compará-las com as nossas, distinguindo todas as
circunstâncias capazes de alterar o caso, é o mesmo que decifrar sem ter uma
chave, e deixar-se o mais das vezes enganar, quer por excesso de confiança ou
por excesso de desconfiança, conforme aquele que lê seja um bom ou um mau
homem. Mas mesmo que um homem seja capaz de ler perfeitamente um outro através
de suas ações, isso servir-lhe-á apenas com seus conhecidos, que são muito
poucos. Aquele que vai governar uma nação inteira deve ler, em si mesmo, não
este ou aquele indivíduo em particular, mas o gênero humano. O que é coisa difícil,
mais ainda do que aprender qualquer língua ou qualquer ciência, mas ainda
assim, depois de eu ter exposto claramente e de maneira ordenada minha própria
leitura, o trabalho que a outros caberá será apenas verificar se não encontram
o mesmo em si próprios. Pois esta espécie de doutrina não
admite outra demonstração, explica Hobbes no livro o Leviatã .
Como por fim a
esse conflito?
Para Hobbes, o
homem é o indivíduo. Mas atenção, antes de falarmos em individualismo burguês. O indivíduo hobbesiano não almeja
tanto os bens, mas a honra. Entre as causas da violência, uma das principais
reside na busca da glória, quando os homens se batem "por ninharias, como
uma palavra, um sorriso, uma diferença de opinião, e qualquer outro sinal de
desprezo, quer seja diretamente dirigido a suas pessoas, quer indiretamente a
seus parentes, seus amigos, sua nação, sua profissão ou seu nome. A honra é o
valor atribuído a alguém em função das aparências externas.
O homem
hobbesiano não é então um homo oeconomicus, porque seu maior
interesse não está em produzir riquezas, nem mesmo em pilhá-las. O mais
importante para ele é ter os sinais de honra, entre os quais se inclui a
própria riqueza (mais como meio, do que como fim em si). Quer dizer que o homem
vive basicamente de imaginação. Ele imagina ter um poder, imagina ser
respeitado - ou ofendido - pelos semelhantes, imagina o que o outro vai fazer.
Da imaginação - e neste ponto Hobbes concorda com muitos pensadores do século
XVII e XVIII - decorrem perigos, porque o homem se põe a fantasiar o que é
irreal. O estado de
natureza é uma condição de guerra, porque cada um se imagina (com razão ou sem)
poderoso, perseguido, traído.
Como pôr termo a
esse conflito? Há uma base jurídica para isso; depois do direito de natureza (o direito que todos tem, independente
de qualquer coisa externa que os proíba, como o Estado e etc, Direito Natural),
Hobbes define o que é a lei de
natureza (é aquilo que o
Estado estipula como adequado para a sobrevivência do homem, segundo o
entendimento do governante, Direito Positivo) :
"Uma lei de
natureza (lex naturalis) é um preceito ou regra geral, estabelecido pela
razão, mediante o qual se proíbe a um homem fazer tudo o que possa destruir sua
vida ou privá-lo dos meios necessários para preservá-la, ou omitir aquilo que
pense poder contribuir melhor para preservá-la. Porque embora os que têm
tratado deste assunto costumem confundir o direito e
a lei, é necessário distingui-los um do outro. Pois o direito consiste na
liberdade de fazer ou de omitir algo, ao passo que a lei determina ou obriga a
uma dessas duas coisas (fazer ou omitir). De
modo que a lei e o direito se distinguem tanto como a obrigação e a liberdade,
as quais são incompatíveis quando se referem à mesma matéria.
Assim, para
Hobbes, todo homem tem direito a todas as coisas, incluindo os corpos dos
outros. Mas a partir disso é necessário haver uma lei que proíba certos ou
autorize certos direitos.
Portanto,
enquanto perdurar este direito de cada homem a todas as coisas, não poderá
haver para nenhum homem (por mais forte e sábio que seja) a segurança de viver
todo o tempo que geralmente a natureza permite aos homens viver. Consequentemente é um preceito ou regra geral da
razão, Que todo homem deve esforçar-se pela
paz, na medida em que tenha esperança de consegui-la, e caso não a consiga pode
procurar e usar todas as ajudas e vantagens da guerra. A primeira parte desta
regra encerra a lei primeira e fundamental de natureza, isto é, procurar a paz,
e segui-la. A segunda encerra a suma do direito de natureza, isto é, por todos
os meios que pudermos, defendermo-nos a nós mesmos.
Desta lei
fundamental de natureza, mediante a qual se ordena a todos os homens que
procurem a paz, deriva esta segunda lei: Que um homem concorde, quando
outros também o façam, e na medida em que tal considere necessário para a paz e
para a defesa de si mesmo, em renunciar a seu direito a todas as coisas,
contentando-se em relação aos outros homens, com a mesma liberdade que aos
outros homens permite em relação a si mesmo.
Porque enquanto
cada homem detiver seu direito de fazer tudo quanto queira todos os homens se
encontrarão numa condição de guerra. Mas se os outros homens não renunciarem a
seu direito, assim como ele próprio, nesse caso não há razão para que alguém se
prive do seu, pois isso equivaleria a oferecer-se como presa, e não a dispor-se
para a paz.
Mas não basta o
fundamento jurídico. É preciso que exista um Estado dotado da espada, armado,
para forçar os homens ao respeito. Desta maneira, aliás, a imaginação será
regulada melhor, porque cada um receberá o que o soberano determinar. Porque as
leis de natureza (como a justiça, a equidade, a modéstia,
a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam)
por si mesmas, na ausência do temor de algum poder capaz de levá-las a ser
respeitadas, são contrárias a nossas paixões naturais, as quais nos fazem
tender para a parcialidade,
o orgulho, a vingança e coisas semelhantes. Os pactos sem a espada não passam de palavras, sem
força para dar qualquer segurança a ninguém. Portanto, apesar das leis de
natureza (que cada um respeita quando tem vontade de respeitá-las), se não for
instituído um poder suficientemente grande para nossa segurança, cada um
confiará apenas em sua própria força e capacidade, como proteção contra todos
os outros.
Em todos os
lugares onde os homens viviam em pequenas famílias, roubar-se e espoliar-se uns
aos outros sempre foi uma ocupação legítima, e tão longe de ser considerada
contrária à lei de natureza que quanto maior era a espoliação conseguida maior
era a honra adquirida. Para Hobbes, então, o poder do Estado tem que ser pleno.
O Estado medieval não conhecia poder absoluto, nem soberania - os poderes do
rei eram contrabalançados pelos da nobreza, das cidades e dos Parlamentos. Jean
Bodin, no século XVI, é o primeiro teórico a afirmar que no Estado deve haver
um poder soberano, isto é, um foco de autoridade que possa resolver todas as
pendências e arbitrar qualquer decisão. Hobbes
desenvolve essa idéia, e monta um Estado que é condição para existir a própria
sociedade. A sociedade nasce com o Estado, ou seja, para Hobbes a única maneira
de instituir um tal poder comum, capaz de defendê-los das invasões dos estrangeiros
e das injúrias uns dos outros, garantindo-lhes assim uma segurança suficiente
para que, mediante seu próprio labor possam alimentar-se e viver satisfeitos, é
conferindo toda sua força e poder a um homem, ou a uma assembléia de homens,
que possa reduzir suas diversas vontades, por pluralidade de votos, a uma só
vontade. - Até esse ponto
poucos doutrinadores fundamentara a soberania estatal melhor do que Hobbes,
devido a isto, sua importância para a ciência politica é se torna notória.
Funcionamento
Estatal Hobbesiano.
Continuando aqui
ainda a teoria hobbesiana: Designar um homem ou uma assembleia de homens como
representante de suas pessoas, considerando-se e reconhecendo-se cada um como
autor de todos os atos que aquele que representa sua pessoa praticar ou levar a
praticar, em tudo o que disser respeito á paz e segurança comuns; todos
submetendo assim suas vontades à vontade do representante, e suas decisões à
sua decisão. Isto é mais do que consentimento, ou concórdia, é uma verdadeira
unidade de todos eles, numa só e mesma pessoa, realizada por um pacto de cada
homem com todos os homens, de um modo que é como se cada homem dissesse a cada
homem: Cedo e transfiro meu direito de governar-me a mim mesmo a este homem,
ou a esta assembléia de homens, com a condição de transferires a ele teu
direito, autorizando de maneira semelhante todas as suas ações.
Feito isto, à
multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado, ou em
latim civitas. É nele que consiste a essência do Estado, a qual
pode ser assim definida: Uma pessoa de cujos atos uma grande multidão,
mediante pactos recíprocos uns com os outros, foi instituída por cada um como
autora, de modo a ela poder usar a força e os recursos de todos, da maneira que
considerar conveniente, para assegurar a paz e a defesa comum.
Aquele que é
portador dessa pessoa se chama soberano, e dele se diz que possui poder
soberano. Todos os restantes são súditos." Por isso, o
poder do governante tem que ser ilimitado. Pois, se ele sofrer alguma limitação,
se o governante tiver de respeitar tal ou qual obrigação (por exemplo, tiver
que ser justo) - então quem irá julgar se ele está sendo ou não justo? Quem
julgar terá também o poder de julgar se o príncipe continua príncipe ou não - e
portanto será, ele que julga, a autoridade suprema. Ou seja, para Hobbes não há
alternativa: ou o poder é absoluto, ou continuamos na condição de guerra, entre
poderes que se enfrentam. Para montar o poder absoluto, Hobbes concebe um
contrato diferente, sui generis. Observemos que o soberano não
assina o contrato - este é firmado apenas pelos que vão se tornar súditos, não
pelo beneficiário. Por uma razão simples: no momento do contrato não existe
ainda soberano, que só surge devido ao contrato. Disso resulta que ele se conserva
fora dos compromissos, e isento de qualquer obrigação.
É desta
instituição do Estado que derivam todos os direitos e faculdades daquele
ou daqueles a quem o poder soberano é conferido mediante o consentimento do
povo reunido. Em primeiro lugar, na medida em que pactuam, deve entender-se que
não se encontram obrigados por um pacto anterior a qualquer coisa que
contradiga o atual. Consequentemente, aqueles que já instituíram um Estado,
dado que são obrigados pelo pacto a reconhecer como seus os atos e decisões de
alguém, não podem legitimamente celebrar entre si um novo pacto no sentido de
obedecer a outrem, seja no que for, sem sua licença. Portanto, aqueles que
estão submetidos a um monarca não podem sem licença deste renunciar à
monarquia, voltando á confusão de uma multidão desunida. Por outro lado, cada
homem conferiu a soberania àquele que é portador de sua pessoa, portanto se o
depuserem estarão tirando-lhe o que é seu, o que também constitui injustiça.
Além do mais, se aquele que tentar depor seu soberano for morto, ou por ele
castigado devido a essa tentativa, será o autor de seu próprio castigo, dado
que por instituição é autor de tudo quanto seu soberano fizer. E, dado que
constitui injustiça alguém fazer coisa devido à qual possa ser castigado por
sua própria autoridade, também a esse título ele estará sendo injusto, dado que
o direito de representar a pessoa de todos é conferido ao que é tornado
soberano mediante um pacto celebrado apenas entre cada um e cada um, e não
entre o soberano e cada um dos outros, não pode haver quebra do pacto a parte
do soberano, portanto nenhum dos súditos pode libertar-se da sujeição, sob
qualquer pretexto de infração.
E ainda segundo
Hobbes, se a maioria, por voto de
consentimento, escolher um soberano, os que tiverem discordado devem passar a
consentir juntamente com os restantes. Ou seja, devem aceitar e reconhecer
todos os atos que ele venha a praticar, ou então serem justamente destruídos pelos
restantes. Aquele que voluntariamente ingressou na congregação dos que
constituíam a assembléia, declarou suficientemente com esse ato sua vontade (e
portanto tacitamente fez um pacto) de se conformar ao que a maioria decidir.
Portanto, se depois recusar aceitá-la, ou protestar contra qualquer de seus
decretos, age contrariamente ao pacto, isto é, age injustamente. E quer faça
parte da congregação, quer não faça, e que seu consentimento seja pedido, quer
não seja, ou terá que submeter-se a seus decretos ou será deixado na condição
de guerra em que antes se encontrava, e na qual pode, sem injustiça, ser
destruído por qualquer um.. Dado que todo súdito é por instituição autor de
todos os atos e decisões do soberano instituído, segue-se que nada do que este
faça pode ser considerado injúria para com qualquer de seus súditos, e que
nenhum deles pode acusá-lo de injustiça. Pois quem faz alguma coisa em virtude
da autoridade de um outro não pode nunca causar injúria àquele em virtude de
cuja autoridade está agindo.
Por esta
instituição de um Estado, cada indivíduo é autor de tudo quanto o soberano
fizer, por consequência aquele que se queixar de uma injúria feita por seu
soberano estar-se-á queixando daquilo de que ele próprio é autor, portanto não
deve acusar ninguém a não ser a si próprio; e não pode acusar-se a si próprio
de injúria, pois causar injúria a si próprio é impossível. É certo que os
detentores do poder soberano podem cometer iniquidades, mas não podem cometer
injustiça nem injúria em sentido próprio, e em consequência do que foi dito por
último, aquele que detém o poder soberano não pode justamente ser morto, nem de
qualquer outra maneira pode ser punido por seus súditos. Dado que cada súdito é
autor dos atos de seu soberano, cada um estaria castigando outrem pelos atos
cometidos por si mesmo."
A questão da
Igualdade e liberdade
Nesse Estado, em
que o poder é absoluto - perguntará o leitor - que papel caberão à liberdade e
á igualdade, estes grandes valores que aprendemos a respeitar? Ora, o que Hobbes faz é justamente
desmontar o valor retórico que atribuímos a palavras capazes de gerar tanto
entusiasmo, tanta ambição, descontentamento e guerra. A igualdade, já vimos, é
o fator que leva à guerra de todos, dizendo que os homens são iguais, Hobbes
não faz uma proclamação revolucionária contra o Antigo Regime (como fará a
Revolução Francesa: "Todos os homens nascem livres e iguais..."),
simplesmente afirma que dois ou mais homens podem querer a mesma coisa, e por
isso todos vivemos em tensa competição.
E a liberdade?
Hobbes vai defini-la de modo que também deixa de ser um valor. Liberdade significa, em
sentido próprio, a ausência de oposição (entendendo por oposição os
impedimentos externos do movimento); e não se aplica menos ás criaturas
irracionais e inanimadas do que às racionais. Porque de tudo o que estiver
amarrado ou envolvido de modo a não poder mover-se senão dentro de um certo
espaço, sendo esse espaço determinado pela oposição de algum corpo externo,
dizemos que não tem liberdade de ir mais além. E o mesmo se passa com todas as
criaturas vivas, quando se encontram presas ou limitadas por paredes ou
cadeiras; e também das águas, quando são contidas por diques ou canais, e se
assim não fosse se espalhariam por um espaço maior, costumamos dizer que não
têm a liberdade de se mover da maneira que fariam se não fossem esses
impedimentos externos. Mas
quando o que impede o movimento faz parte da constituição da própria coisa não
costumamos dizer que ela não tem liberdade, mas que lhe falta o poder de se
mover; como quando uma pedra está parada, ou um homem se encontra amarrado ao
leito pela doença. Conformemente a este significado próprio e geralmente aceito
da palavra, um homem
livre é aquele que, naquelas coisas que graças a sua força e engenho é capaz de
fazer, não é impedido de fazer o que tem vontade de fazer", ou seja,
Hobbes começa reduzindo a liberdade a uma determinação física, aplicável a
qualquer corpo. Com isso ele praticamente elimina o valor (a seu ver retórico)
da liberdade como um clamor popular, como um princípio pelo qual homens lutam e
morrem. Segundo ele é coisa
fácil os homens se deixarem iludir pelo especioso nome de liberdade e, por
falta de capacidade de distinguir, tomarem por herança pessoal e direito inato
seu aquilo que é apenas direito do Estado. E quando o mesmo erro é confirmado
pela autoridade de autores reputados por seus escritos sobre o assunto, não é
de admirar que ele provoque sedições e mudanças de governo.
Resta, porém,
uma liberdade ao homem. Hobbes explica que quando o indivíduo firmou o contrato
social, renunciou ao seu direito de natureza, isto é, ao fundamento jurídico da
guerra de todos. É que, neste direito, o meio (fazer o que julgasse mais
conveniente) contradizia o fim (preservar a própria vida). O homem percebeu
que, como todos tinham esse direito tanto quanto ele, o resultado só podia ser a
guerra - "e a vida do homem [era] solitária, pobre, sórdida, embrutecida e
curta". Mas, dando poderes ao soberano, a fim de instaurar a paz, o
homem só abriu mão de seu direito para proteger a sua própria vida. Se esse fim
não for atendido pelo soberano, o súdito não lhe deve mais obediência - não
porque o soberano violou algum compromisso (isso é impossível, pois o soberano
não prometeu nada), mas simplesmente porque desapareceu a razão que levava o
súdito a obedecer. Esta é a "verdadeira liberdade do súdito". Este
ponto é delicado, e devemos insistir nele. O soberano não perde a soberania se
não atende aos caprichos de cada súdito. Mas, se deixa de proteger a vida de
determinado indivíduo, este indivíduo (e só ele) não lhe deve mais sujeição. Os
outros não podem aliar-se ao desprotegido, porque o governante continua a
protegê-los. E pouco importa se o soberano fere o (ex-) súdito tendo ou não
razão (afinal, repetimos, ninguém pode julgar o soberano). O
soberano não está atado pelas leis humanas de justiça, por isso, de seu ponto
de vista, não há diferença em ele castigar um culpado ou agredir um inocente.
Já o súdito, se é súdito, é porque prometeu obedecer a fim de não morrer na
guerra generalizado; por isso, de seu ponto de vista tanto faz a sua vida ser ameaçada
por um soberano impiedoso e iníquo, quanto por um governante que o julgou
concedendo-lhe a mais ampla defesa. O que temos, em todos os casos, é o mesmo
esquema: um governante que fere e, por isso, um súdito que recupera sua
liberdade natural.
O Estado, e a
propriedade
O desconforto de
sua doutrina, em grande parte, deve-se à propriedade. A sociedade burguesa, que
no tempo de Hobbes já luta para se afirmar, estabelece a autonomia do
proprietário para fazer com seu bem o que bem entenda. Na Idade Média, a
propriedade era um direito limitado, porque havia inúmeros costumes e
obrigações que a controlavam. Por exemplo, o senhor de terras não podia impedir
o pobre de colher espigas, ou frutas, na proporção necessária para saciar a
fome. Se havia um servo ligado à gleba, nem este podia deixá-la, nem o senhor
podia expulsá-lo para dar outro uso à terra. Mas, nos tempos modernos, o
proprietário adquire o direito não só ao uso do bem e a seus frutos (que
somam-se na palavra usufruto), como também ao abuso: isto é, o direito de
alienar o bem, de destruí-lo, vendê-lo ou dá-lo. Hobbes reconhece o fim das
velhas limitações feudais à propriedade - e nisso ele está de acordo com as
classes burguesas, empenhadas em acabar com os direitos das classes populares à
terra comunal ou privada - mas, ao mesmo tempo, estabelece um limite muito
forte à pretensão burguesa de autonomia: todas as terras e bens devem ser
controladas pelo soberano.
"A
distribuição dos materiais dessa nutrição é a constituição do meu,
do teu e do seu. Isto é, numa palavra, da propriedade.
E em todas as espécies de Estado é da competência do poder soberano. Porque
onde não há Estado, conforme já se mostrou, há uma guerra perpétua de cada
homem contra seu vizinho, na qual portanto cada coisa é de quem a apanha e
conserva pela força, o que não é propriedade nem comunidade, mas
incerteza. O que é a tal ponto evidente que até Cícero (um apaixonado
defensor da liberdade), numa arenga pública, atribuiu toda propriedade às leis
civis: "Se as leis civis",, disse ele, "alguma vez forem
abandonadas, ou negligentemente conservadas (para não dizer oprimidas), não
haverá nada mais que alguém possa estar certo de receber de seus antepassados,
ou deixar a seus filhos". E também: "suprimi as leis civis, e ninguém
mais saberá o que é seu e o que é dos outros". Visto portanto que a
introdução da propriedade é um efeito do Estado, que anda pode
fazer a não ser por intermédio da pessoa que o representa, ela só pode ser um
ato do soberano, e consiste em leis que só podem ser feitas por quem tiver o
poder soberano. Bem o sabiam os antigos, que chamavam Nómos (quer
dizer, distribuição) ao que nós chamamos lei, e definiam a justiça
como a distribuição a cada um do que é seu”.
sexta-feira, 8 de novembro de 2013
Templários
A sociedade secreta que mais mexe com a imaginação das
pessoas é, sem dúvida nenhuma, a dos Templários. Não apenas pela imagem
incrível transmitida por livros como O Código Da Vinci e O Último Templário,
mas também pelos inúmeros estudos que mostram aspectos desconhecidos desse que
já foi o grupo mais influente e poderoso da Igreja Católica.
O que mais intriga as pessoas é saber, afinal de contas, se
os Templários acabaram mesmo, ou se transformaram-se em algo diferente. É fácil
conhecer um ou outro componente da Maçonaria, ou da Rosacruz, mas poucos são os
que se dizem neo-templários, ou novos templários. A julgar pela grande
quantidade de grupos que se apresentam como tal na Internet, fica difícil
rastrear com precisão o verdadeiro herdeiro dos cavaleiros da Idade Média que
lutaram nas Cruzadas. Ainda por cima, há o fator miscigenação, já visto no caso
da Rosacruz. Os Templários, assombrados pela acusação de heresia oriunda da
Igreja Católica, sob influência do rei francês Felipe IV, o Belo, teriam se
misturado aos maçons, tornando-se um grau dentro da hierarquia da Maçonaria.
Historicamente falando, só temos certeza da transmutação dos
Templários na Ordem de Cristo, ocorrida em Portugal, sobre a qual falaremos
mais adiante. Os demais grupos, que se apresentam como "os verdadeiros
depositários do conhecimento templário", como se autodefinem, necessitam
ainda de aval histórico para comprovar a afiliação.
Enquanto isso, os pesquisadores prosseguem em seus esforços
para avaliar o que teria acontecido com os Templários, após os fatídicos
acontecimentos de 13 de outubro de 1307. A tradição europeia afirma que a
superstição sobre a sexta-feira 13 ser um dia de azar vem do fato desse ter
sido o dia em que os Templários foram presos e, mais tarde, condenados à
fogueira. Muitos discordam dessa suposta origem, mas a fama dos cavaleiros
garantiu a associação com o termo e, até mesmo, com certas magias protetoras
contra os maus fluidos desse dia, que também teriam origem no chamado esoterismo
templário; embora muitos aleguem que tais artifícios nunca funcionaram para
salvar os próprios Templários de seu destino.
Origens
As Ordens de Cavalaria da Idade Média sempre fizeram um
certo sucesso entre as pessoas comuns. Em plena guerra contra os sarracenos
(hoje conhecidos como muçulmanos), muitos desses grupos ganharam fama e
sucesso, como os Cavaleiros Hospitalários (do Hospital de São João) e os
Cavaleiros Teutônicos, de origem germânica. Porém, nenhum deles atingiu o nível
de fama e fortuna que arrebatou a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do
Templo de Salomão, cujo nome em latim é Pauperes Commilitones Christi Templique
Solomonici. O grupo foi fundado por volta de 1096, pouco depois da Primeira
Cruzada, e existiu por mais de dois séculos na Idade Média. Seu objetivo
principal era proteger os peregrinos que vinham do continente europeu dispostos
a fazer a peregrinação para Jerusalém por rotas que, invariavelmente, acabavam
em saques e morte nas mãos de sarracenos. Até que ponto isso era realmente o
que acontecia ninguém sabe, mas sim, essa era a finalidade inicial dessa ordem.
Apesar de ter o início de suas atividades nessa época, a
Ordem só ganhou o reconhecimento da Igreja Católica por volta de 1127, no
Concílio de Troyes, com o Papa Honório II. Como seus membros passavam a imagem
de homens piedosos, de vida monástica, e eram capazes de entrar numa batalha
com ferocidade impressionante, a ponto de ter como uma de suas regras nunca
abandonar o campo de batalha, os Templários cresceram rapidamente em número de
membros e em poder. O cavaleiro dessa Ordem era facilmente reconhecido por suas
túnicas brancas adornadas com a cruz vermelha, de comprimento e largura iguais.
Seus membros eram respeitados e, por vezes, temidos, pois se entregavam a uma
rotina de preparação fora das batalhas, na qual as vidas religiosa e militar se
misturavam de maneira complementar.
O que tanto chamou a atenção dos nobres e reis foi a maneira
como eles conseguiram acumular uma vasta infraestrutura, que incluía grandes
propriedades e muito dinheiro. Os Templários também criaram o embrião dos
travellers cheques: negociavam cartas de crédito com o peregrino que ia
realizar uma viagem, e essa carta poderia ser convertida em dinheiro em
qualquer estabelecimento da Ordem, num artifício parecido com o das atividades
bancárias modernas. Apesar da riqueza que aumentava em seus cofres, a Ordem
mantinha como símbolo a imagem de dois cavaleiros montados no mesmo cavalo, um
sinal de pobreza.
Com o passar do tempo, a Ordem aperfeiçoou sua estrutura
hierárquica, desenvolvendo-a de simples sacerdotes e serventes até os soldados
que combatiam nos conflitos. A essa altura, não havia apenas religiosos entre
seus componentes, mas também burgueses, e dinheiro para se sustentar não
faltava, principalmente pela receita oriunda de doações dos reinos. A Ordem já
tinha seus objetivos ampliados: além da proteção aos peregrinos, seus membros
recebiam treinamento bélico, combatiam ao lado dos demais cruzados envolvidos
nos conflitos na Terra Santa, conquistavam terras, administravam povoados
inteiros, extraíam minérios, erguiam suntuosos castelos, que existem até hoje catedrais,
moinhos, aloja mentos e oficinas, fiscalizavam o cumprimento das leis e
intervinham na política europeia. Afinal, eles deviam explicações apenas ao
Papa, e a mais ninguém, o que significava total autonomia em seus negócios.
Não demorou muito para que a monarquia e o clero notassem
que o poder templário crescia a olhos vistos. Muitos monarcas, de fato, faziam
empréstimos com eles, tornando-se subordinados a seus ditames, enquanto suas
dívidas não eram pagas.
A boa vida começaria a mudar com a reviravolta da situação
na Terra Santa. Os muçulmanos começaram a conquistar vários reinos cristãos no
local. Quando a cidade de Acre caiu, no século XIII, os cavaleiros tão temidos
viram-se obrigados a abandonar suas posições no local, migrando para a Ilha de
Chipre, na qual se estabeleceram. Essas perdas começaram a reverter a situação,
e a confiança do próprio povo, que antes os idolatravam. Os Templários começaram
a ser acusados de riqueza excessiva e ambição: eles teriam deixado o desejo de
riqueza atrapalhar a defesa dos interesses cristãos. Logo, a existência de uma
Ordem como a deles já não se fazia necessária.
O fim da ordem social.
Foi quando entrou em cena Felipe IV, o Belo. Ao contrário da
maioria dos regentes, Felipe estava acostumado a realizar campanhas militares
aliadas ao clero em troca de benefícios políticos. Ele devia terras e grandes
somas de dinheiro aos Templários. Como suas dívidas cresciam, e ele não
conseguia saldá-las, propôs ao arcebispo Beltran de Got uma troca de favores. O
monarca usaria sua influência para eleger o religioso Papa, e este, por sua
vez, acabaria com os Templários assim que assumisse seu novo cargo.
Assim, em 1305, Beltran assumiu como Papa Clemente V.
Começou, então, o processo contra os Templários. Após a prisão em massa de
membros da Ordem, ocorrida durante a fatídica sexta-feira 13 já citada, os
cavaleiros foram trancados em prisões e perseguidos em quase todos os reinos
cristãos. As acusações variavam: de heresia a idolatria, de homossexualismo a
conspiração com infiéis. Na França, cerca de cinco mil cavaleiros, juntamente
com seu Grão-mestre Jacques de Molay, fo ram presos e torturados para terem
suas confissões arrancadas à força. Apesar de outros países, como a Alemanha,
declararem os Templários inocentes, a Ordem foi suprimida. Em Portugal, Espanha
e até na Escócia os regentes não se convenceram da suposta culpa dos
Templários, o que causou curiosas transformações, das quais tratarei em breve.
Muitos Templários presos confessaram, e receberiam
absolvição por seus supostos pecados, desde que mudassem de Ordem, indo para os
Hospitalários, ou outras ordens de cavalaria. Porém, aqueles que se retratavam
(ou seja, confessavam e depois afirmavam que o que haviam dito era mentira)
eram condenados como hereges reincidentes e condenados à fogueira. Foi o que
aconteceu com Jacques de Molay e outros dirigentes. Assim, em 18 de março de
1314, eles foram queimados sob o olhar do Papa Clemente V e do rei Felipe IV, o
Belo, nas margens do Rio Sena, em Paris. Há uma lenda que diz que Molay
amaldiçoou o Papa e o rei pela injustiça: o papa morreria no máximo em 40 dias
e o rei, em um ano. Aparentemente, a maldição funcionou, pois Clemente V morreu
exatos 33 dias depois, e Felipe, em pouco mais de seis meses.
Por toda a Europa, a Ordem foi oficialmente extinta. Seus
bens e estrutura foram repartidos entre outras ordens menores. A vasta riqueza
dos Templários, bem como sua vasta frota de navios, simplesmente desapareceu sem deixar traços, o que levou
muitos pesquisadores a especularem sobre o paradeiro desses bens. Até hoje há
quem venha com hipóteses malucas, como a suposta viagem dos Templários ao Novo
Continente e a ocultação do tesouro templário em poços escondidos em ilhas no
que hoje é o vasto território dos Estados Unidos.
O fato é que, historicamente, nunca se descobriu o que teria
acontecido com os navios templários, nem com o verdadeiro paradeiro de seu
vasto tesouro.
Os Templários e a Ordem de Cristo
Em Portugal, os Templários não foram considerados culpados,
mas, graças às pressões do Papa, foi-lhes imposta uma condição: que mudassem de
nome. Assim, eles constituíram uma nova Ordem, que se chamou Cavaleiros de
Cristo. Qualquer reprodução das caravelas de Pedro Álvares Cabral, por exemplo,
indica que as velas das embarcações eram pintadas com a cruz símbolo dos
Templários, e agora símbolo da nova Ordem.
O terreno para a criação dessa nova Ordem já se fazia sentir
muito antes do processo deflagrado na França. Afinal, durante os séculos XII e
XIII, foram os Templários que ajudaram os portugueses nas batalhas contra os
muçulmanos. Como recompensa, eles receberam extensos domínios de terra e poder
político. Os castelos, igrejas e povoados sob proteção templária prosperaram
como nunca. Quando o processo contra a Ordem foi estabelecido, o rei de
Portugal, Dom Dinis, logo concordou em transferir para a nova Ordem as mesmas
propriedades e privilégios dos Templários.
Para muitos pesquisadores, a mudança deu-se apenas para que
não fosse mais usado o nome Templários; no mais, ficou tudo na mesma. O hábito
e a insígnia eram os mesmos, com apenas algumas modificações leves.
Herdeiros dos Templários
Um dos pontos mais difíceis de se obter é a exata
determinação de quem é o verdadeiro grupo herdeiro dos conhecimentos
templários. Não se pode esquecer que, para muitas pessoas da época -
principalmente quando os Templários perderam o poder sobre os reinos cristãos
na Terra Santa -, a vivência com os muçulmanos (há relatos de Templários
mantidos capturados por meses) poderia ter colocado os cavaleiros em contato
com conhecimentos milenares, argumento conveniente para a base das acusações de
bruxaria e adorações de ídolos barbados.
O fato de o arquivo central dos Templários, na sede da Ilha
de Chipre, ter sido destruído por ataques de otomanos provocou o surgimento de
diversas lendas, nas quais, hoje em dia, muitos grupos se inspiram para se
apresentarem como os "verdadeiros Templários".
Muitos historiadores acreditam que os cavaleiros, de fato,
separaram-se quando o processo na França começou. Como já foi dito, um dos
prováveis refúgios foi a Escócia, por sua distância e pelo fato de que seu
regente estava em conflito com a Igreja. Curiosamente, há registro apenas de
dois templários presos naquela época, e ambos eram ingleses. Embora os
cavaleiros estivessem em território seguro, sempre havia o medo de serem
descobertos e tidos novamente como traidores. Por isso, teriam se valido de
seus conhecimentos de arquitetura sagrada, assumindo um novo papel dentro da
Maçonaria.
A junção entre Maçonaria e Templários parece, de fato, fazer
sentido, se analisarmos a necessidade que eles tinham em partilhar
conhecimentos. Basta conferir uma lista de castelos templários para entender
que havia motivos para as duas sociedades secretas se aproximarem,
principalmente pelo interesse na arte da construção.
É claro que não há como comprovar isso, portanto, nesse
quesito, só podemos especular. Mas, a julgar pelo modo como os hábitos dos
Cavaleiros Templários da Maçonaria é constituído, podemos ter um vislumbre da
verdade.
Esoterismo Templário
Cifras templárias já foram descobertas por pesquisadores,
que afirmam que elas eram usadas para guardar os segredos dos registros
financeiros da Ordem. Em vários castelos ligados aos cavaleiros, essas mesmas
cifras podem ser vistas em garranchos escritos nas paredes. Tal fato pode não
ter muita conexão esotérica, mas é uma prova de que eles possuíam seus próprios
códigos de comunicação.
Falar em esoterismo é arriscar tratar de algo que não possui
nenhum tipo de registro oficial. O contato que eles tiveram com o inimigo
sarraceno pode muito bem ter lhes proporcionado uma espécie de ligação com uma
filosofia influenciada pela sabedoria oriental, o que não chega a ser uma
heresia.
Especulações também afirmam que a fundação da Ordem teria
sido articulada por Bernardo de Claraval (conhecido como São Bernardo) para
encontrar a Arca da Aliança e as Tábuas das Leis Divinas, ocultas em algum
lugar nos recônditos escombros do que restou do Templo de Salomão. Assim que
tais relíquias foram encontradas, os Templários começaram a se desenvolver de
maneira rápida e poderosa. A ligação deles com o Santo Graal, tão alardeada por
livros como O Código Da Vinci, nada mais seria do que uma metáfora para se
referir a essas verdadeiras "caças ao tesouro esotérico".
No mais, a maioria das acusações do processo francês contra
a Ordem seriam especulações, incluindo a famosa ligação deles com o ídolo
barbudo conhecido como Baphomet, nome tido como uma possível corruptela do nome
Maomé.
Se acreditarmos nas ligações maçônicas e/ou rosacrucianas,
veremos que muito do chamado esoterismo templário tem a ver com técnicas de
meditação orientais, ligadas ao Budismo e ao Bramanismo, e não com
conhecimentos extraídos de povos árabes. Porém, como vimos no capítulo sobre a
Rosacruz, viagens ao Oriente sempre foram consideradas buscas por fontes de
conhecimentos arcanos. Por isso, não é de se estranhar que muito do que os
inquisidores pensavam ser "ligação com o demônio" poderia não passar
de fanatismos de um catolicismo radical, comum na época.
Sem contar que a maioria das acusações contra os Templários
foi formulada pelos cúmplices do rei Felipe IV, o Belo, e obtida sob influência
de tortura. Assim, quando ouvimos por aí acusações voltadas contra eles, como
cuspir e andar sobre a cruz, trocar beijos obscenos no umbigo e nas nádegas,
negar a divindade de Cristo, ou beijar o traseiro de um gato, é mais provável
que elas não encontrem respaldo real; muito menos indiquem que os cavaleiros
estivessem envolvidos com qualquer tipo de prática esotérica.
sexta-feira, novembro 08, 2013
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Clube Bilderberg
Existem sociedades que, antes de aparecerem, ninguém fazia
ideia de que pudessem de fato existir. Neste tópico, vamos falar de uma que,
embora pertença à classe de sociedades secretas políticas, também foi alvo
constante da curiosidade mundana.
Se um grupo de estudantes de Yale preparados para os cargos
mais altos da política e finanças mundiais devido ao uso da influência e do
dinheiro de seus pais já é algo que faz a imaginação voar (ver Skull and Bones),
imagine agora um clube fechado, ao qual ninguém tem acesso. Em termos mais
práticos, uma conferência anual não-oficial, na qual os convidados (ou seriam
membros?) são restritos a um número de 130 pessoas. E, detalhe: não é qualquer
um que participa desse encontro, mas apenas pessoas com alguma influência nas
esferas de poder empresarial, acadêmico, midiático ou político.
Segundo relatos, esse grupo teria sido responsável por
vários fatos aparentemente não ligados entre si, como a ascensão dos Beatles, a
eclosão do Caso Watergate, nos Estados Unidos, e os resultados das últimas eleições
norte-americanas (feito também atribuído aos Skull and Bones). Teria, ainda,
dedo ativo na popularização da Coca-Cola, na ocupação norte-americana do Iraque
e, pasmem, no fato de a Bolsa de Valores ter altas e baixas.
Quem seria esse grupo, exatamente? Mais uma vez, temos de
apelar para a literatura já publicada, uma vez que os artigos de Internet são
cheios de teorias da conspiração, o que os tornam altamente suspeitos e
tendenciosos. O russo residente na Espanha Daniel Estulin, autor de um dos
livros mais completos sobre esse grupo, afirma que eles tentam "criar uma
ordem mundial em que todos, um dia, serão subservientes". E acrescenta: "É
o que eles chamam de Governo do Mundo único. "
Porém, o estudo de Estulin, que levou cerca de 15 anos para
ser finalizado, consegue ir a fundo no que hoje é conhecido como Clube
Bilderberg. Com algumas variações, temos também grafias como Grupo Bilderberg e
Conferência Bilderberg.
A maioria das informações veiculadas sobre esse clube tem
como confirmação o livro de Estulin, que consegue fugir do clima de paranoia
encontrado nos artigos da Internet. O Bilberderg, formado principalmente por
ex-presidentes, dirigentes de empresas multinacionais, banqueiros, megainvestidores
e intelectuais que atuam em diversas áreas, tem como braço principal um
organismo chamado Council on Foreign Relations (Conselho das Relações
Internacionais), cuja sede fica na cidade norte-americana de Nova York. O
escritor diz que os cerca de três mil integrantes do CFR possuem um poder de
proporções extraordinárias, influenciando as ações de diversos segmentos do
governo dos Estados Unidos, entre eles órgãos como a CIA, o FBI e o IRS
(Departamento do Tesouro). Boatos persistentes insistem que o Bilderberg,
inclusive, já teria conquistado um voto de confiança de Barack Obama, o
presidente eleito, e que também andaram falando com John McCain, seu
adversário na disputadíssima campanha eleitoral.
Origens
ontar de maneira sucinta como esse grupo veio a nascer é uma
tarefa hercúlea, mas, mesmo assim, não custa tentar. Relatos dão conta de que o
grupo foi criado há exatos 55 anos, e que seu nome vem do local em que ocorreu
a primeira reunião, em 1954: Hotel de Bilderberg em Oosterbeek, perto de
Arnhemia, na Holanda.
Segundo Estulin, o Clube tinha por objetivo primário
"debater assuntos relevantes e de interesse mundial". Entre seus
membros contam, ainda hoje, todos os presidentes norte-americanos vivos (incluindo
os Bush pai e filho), os dirigentes da Coca-Cola, da Ford, do Banco Mundial, do FMI, da Otan, da OMC, da ONU,
vários primeiros-ministros e até mesmo representantes de várias casas reais
europeias, e dos mais influentes meios de comunicação. Essa lista impressionante
torna-se ainda mais assustadora quando vemos a inclusão de nomes como o
ex-secretário de estado norte-americano Henry Kissinger, e as influentes famílias
Rockefeller e Rotschild. Supostamente, seus membros reúnem-se, passam vários
dias conversando, e não revelam o conteúdo do que foi tratado para
absolutamente ninguém, sob nenhuma circunstância.
É claro que esse segredo acaba por gerar teorias das mais
absurdas, e nunca confirmadas, como a de que eles possuem tamanho potencial que
podem, se quiser, e se lhes for apropriado, provocar crises financeiras em
certos países, apenas para beneficiar um aliado, derrubar e eleger governos,
defender interesses variados, e, até mesmo, provocar guerras. Um exemplo muito
utilizado para corroborar esse argumento é a queda de Slobodan Milosevic,
ex-presidente da Sérvia e da República Federal da Iugolsávia. Ela teria sido
tramada pelo Clube Bilderberg, segundo líderes sérvios. Recentemente há boatos
de que a interferência na Siria também é uma das ações do clube Bildeberg, o
que a ex-deputada síria deixa bem claro no vídeo abaixo (em português; estar no trecho de onze minutos a doze minutos do vídeo.
Em artigo sobre o livro de Estulin, publicado no site do
Terra, e assinado por Denise Mota, temos o seguinte comentário:
"Estulin não se esquiva de
dar a lista completa dos que frequentam ou alguma vez estiveram nos encontros
da dita organização (..). O trabalho foi realizado parcialmente em equipe e com
base em informes e reportagens de outros autores, igualmente indicados
copiosamente em seu documento.”
Devido ao livro, Estulin conta que há muito tempo deixou de
ter uma vida normal e vive 24 horas por dia sob proteção de diversas equipes
formadas por ex-agentes especiais da KGB. As investigações que leva adiante lhe
causaram, ele diz, atentados dignos de James Bond. Em um deles, uma mulher
estonteante num vestido de seda vermelho teria tentado seduzi-lo, sem sucesso,
num quarto de hotel. O objetivo era depois jogar-se pela janela e implicá-lo
num caso de homicídio; Em outro, após se encontrar com um informante, o
jornalista teria percebido a tempo que, do elevador em que estava prestes a
entrar, havia sido retirado o piso.
Esse tipo de informação pode parecer golpe de publicidade,
mas os mais crentes e adeptos de teorias conspiratórias com certeza afirmarão
que se trata de uma reação já esperada. Afinal, se tal sociedade secreta
realmente existe, deveria, no mínimo, atacar aqueles que se propõem a divulgar
sua existência...
A primeira Reunião
No entanto, deixemos de lado, por um instante, o mundo
literário, para nos concentrarmos no Clube. Como teria sido a famosa primeira
reunião? Aparentemente, ela aconteceu entre os dias 29 e 30 de maio de 1954. A iniciativa para sua
realização teria partido de um imigrante polonês e conselheiro político chamado
Joseph Retinger. Tudo teria tomado forma a partir da preocupação que ele tinha
com o crescimento do antiamericanismo na Europa Ocidental. Por isso, ele
articulou uma reunião internacional com líderes de países europeus e dos
Estados Unidos o mais rápido possível. O choque entre as culturas dos países
estaria em pauta. O primeiro que aceitou participar foi o Príncipe Bernard, da
Holanda, que também passou a ser um promotor da ideia, juntamente com o então
primeiro-ministro belga, Paul Van Zeeland.
Os membros convidados teriam de receber convite oriundo de
dois participantes de cada país, que deveriam apresentar pontos de vista
liberais e conservadores. Para que a reunião se repetisse com a peridiocidade desejada,
foi criado um comitê executivo, para o qual Retinger seria indicado secretário
permanente. Assim, começaram a ser registrados os nomes dos participantes, para
que uma rede informal de pessoas pudesse se comunicar, com privacidade. Muitos
enxergam nesse esquema uma espécie de sistema de relacionamentos nos moldes de
um Orkut, por exemplo, mas sem páginas na Internet, e realizado no mundo
físico, não no virtual.
Quando Retinger morreu, em 1960, o novo secretário
permanente foi o economista holandês Ernst van der Beugel. Nesse período, as
reuniões do Bilderberg tornaram-se uma espécie de linha direta entre os
governos dos países envolvidos. O Príncipe Bernard permaneceu como presidente
das conferências até o ano de 1976, quando, por se envolver num escândalo
político, não houve reunião.
No ano seguinte, entretanto, as reuniões voltaram a
acontecer; dessa vez com o ex-primeiro-ministro britânico Alec Douglas-Home na
presidência. Depois dele, ascenderiam ao cargo, pela ordem, o ex-presidente da
Alemanha, Walter Scheel; o ex-presidente do banco SG Warburg, Eric Roll; e o
ex-secretário geral da Otan, Lord Carrington.
Algo realmente curioso é que alguns jornalistas chegaram a
participar dessas reuniões; o que seria uma confirmação de que elas realmente
acontecem. Porém, eles só têm acesso ao local com a condição de que manterão
sigilo sobre os temas lá tratados. Um deles, o britânico Martin Wolf, afirmou
que não há absolutamente nada de suspeito nesses encontros. O ex-chanceler
britânico Denis Healey, um dos fundadores do grupo, afirmou em várias ocasiões
que não há nada de errado acontecendo por lá.
Porém, a falta de divulgação a respeito do teor desses
encontros, que alimenta a paranoia de grupos na Internet, leva a maioria das
pessoas a exigir satisfações.
A Sede
Supostamente, a sede da organização localiza-se na Holanda.
Porém, se alguém tentar entrar em contato, verá que mais parece uma empresa
fantasma, e não algo que deva ser levado a sério. Para começar, não há nenhum
tipo de funcionário à vista. O telefone é sempre atendido por uma secretária
eletrônica; que, claro, pede para "deixar recado".
A reclamação dos que desconfiam dos verdadeiros propósitos
do Bilderberg parece meio despropositada, pois há atas que registram o tal
conteúdo dos encontros. No entanto, os documentos não possuem nenhum tipo de
assinatura, o que nos leva a indagar: esses arquivos são originais, ou apenas
forjados? E nem adianta procurar na Internet: as únicas páginas encontradas
sobre o assunto resumem-se a resenhas do livro de Estulin.
A comissão Trilateral
(www.trilateral .org)
Um dos supostos desdobramentos do Bilderberg é a chamada
Comissão Trilateral, fundada em julho de 1973 por David Rockefeller; nome que,
por si mesmo, já é digno de nota. É o atual patriarca dessa família ainda
influente e poderosa.
Um ponto que merece destaque é o fato de a comissão ter, ao
contrário do Bilderberg, um site que pode ser acessado por qualquer pessoa.
Longe de parecer algo mórbido, a página da Internet mostra até um link para
afiliação. Afirma ainda que foi formada "por cidadãos privados da Europa,
Japão e América do Norte, para ajudar a pensar desafios em comum e lideranças
responsáveis por essas áreas industrializadas e democráticas".
O primeiro encontro para tratar de trabalhos aconteceu em
Tóquio, no Japão, em outubro de 1973. Dois anos depois, ocorreu a primeira
reunião com os grupos regionais em Kioto. Hoje, possui cerca de 350 membros
oriundos da Europa, Ásia, Oceania e América do Norte.
O site, inclusive, é bem aberto, a ponto de disponibilizar
aos interessados as recentes atividades do órgão, entre elas, os lugares e
datas nos quais se realizarão os encontros regionais e o geral; previsto para
ocorrer em Dublin, na Irlanda, em 2010.
As críticas feitas para a atuação desse grupo são as mesmas
do Bilderberg: o segredo de suas atividades e a recusa dos membros em falar
sobre as atividades em público, entre outras ressalvas. Vale lembrar que a
Comissão é tida como ligada ao Bilderberg, mas não há uma única menção a essa
suposta ligação no site oficial.
No primeiro ano e meio de sua existência, a Comissão
produziu cerca de seis relatórios, conhecidos como "Informativos do
Triângulo".
Tal atividade gerou o logotipo do grupo: três flechas que
convergem para um ponto no centro, formando um triângulo. Esses relatórios
serviram como diretrizes do desenvolvimento de seus planos, sendo empregados,
também, como uma espécie de canal-antena, com a finalidade de avaliar a opinião
do público.
Sobre a Comissão, temos este trecho de um artigo, publicado
originalmente no site Mídia Sem Máscaras:
"Gary Allen (famoso
jornalista conservador norte-americano), no lhe Rockefeller File, publicado em
1975, escreveu o seguinte: 'Se os documentos do Triângulo são indicativos de
algo, podemos dizer que existem quatro eixos principais no controle da economia
mundial.- o primeiro na direção de criar um sistema monetário mundial
renovado', algo já realizado; `o segundo, na direção da pilhagem dos nossos
recursos para uma ulterior radicalização das nações espoliadas', também já
conseguido, considerando que Rockefeller e companhia enviaram bilhões de
dólares em tecnologia americana à URSS e à China como requisito do futuro
Governo Mundial Único e seu monopólio; 'o terceiro, na direção de explorar a
crise energética para exercer um maior controle internacional', também já
conseguido, com o temor de escassez energética, os movimentos de defesa do meio
ambiente e a guerra do Iraque. O congressista Larry McDonald, em seu prólogo ao
livro de Gary Allen, escreveu: Esta é uma exposição concisa, e que provoca
calafrios, do que certamente foi a história mais importante do nosso tempo: a
ideia dos Rockefeller e seus aliados de criar um Governo Mundial único que
combine o supercapitalismo e o comunismo sob um mesmo teto, tudo sob o controle
deles ( ..) os Rockefeller e seus aliados passaram pelo menos 50 anos seguindo
um cuidadoso plano para controlar os EUA e o resto do mundo aumentando o seu
poder político através do seu poder econômico : "
A ideia para a criação da Comissão foi apresentada pela
primeira vez num encontro do Clube Bilderberg, realizado em Knokke, na Bélgica,
durante a primavera de 1972. Rockefeller havia acabado de ler Between Two Ages,
do professor Zbigniew Brzezinski, da Universidade de Columbia. A obra ecoava
pessoalmente com Rockeffeler, pois descrevia o conceito de que "as pessoas,
os governos e as economias de todas as nações devem servir às necessidades dos
bancos e das empresas multinacionais". Dois meses depois, em julho de
1972, Rockefeller, já membro do Clube Bilderberg e então presidente do CFR,
resolveu abrir sua casa em Pocantico Hills, próxima à cidade de Nova York, para
estabelecer o local dos primeiros encontros da Comissão Trilateral.
A diferença entre o Clube Bilderberg e a Comissão Trilateral
é que o primeiro é muito mais antigo, e limita sua afiliação aos membros da
Otan, que são os Estados Unidos, Europa Ocidental e Canadá. Hoje em dia, com a
ampliação tanto da União Europeia como da Otan, ex-membros do antigo Pacto de
Varsóvia já podem entrar para o Bilderberg. A Comissão nunca teve esse tipo de
restrição.
Porém, os propósitos de ambos os grupos continuam sendo
obscuros. Por mais que divulguem o conteúdo de suas reuniões, enquanto teimarem
em agir à surdina, sempre serão considerados sociedades secretas, ainda que não
pertençam à linha esotérica. Quem sabe, nesse exato momento, não estejam a
preparar o próximo passo para a dominação do mundo, mais próximos de realizar o
sonho de um governo mundial único...
quinta-feira, novembro 07, 2013
Assinar:
Postagens
(
Atom
)
.jpg)
.gif)
.jpg)
.jpg)
.jpg)
.jpg)










