| "Publius": Alexander Hamilton, James Madison, |
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sexta-feira, 18 de julho de 2014
Os Federalistas: Remédios Republicanos para Males Republicanos.
“O
Federalista” é fruto da reunião de uma serie de ensaios publicados na imprensa
de Nova York em 1788, com o objetivo de contribuir para a ratificação da
Constituição pelos Estados. Obra conjunta de três autores,
Alexander Hamilton (1755 – 1804), James Madison (1751 -1836) e John Jay (1745 –
1859), os artigos eram assinados por Publius. Madison e Hamilton encontram-se entre os líderes do movimento que
culminou na convocação da Convenção Federal, da qual foram membros. Quanto à
elaboração da Constituição, Hamilton teve uma participação discreta, já que
suas teses ultracentralizadoras foram prontamente rejeitadas. A James Madison,
por outro lado, é creditada a maior contribuição individual na elaboração da
Constituição, daí porque seja chamado de "Father of the Constitution"
(Pai da Constituição).
Após a ratificação da Constituição,
a presença dos autores de "O Federalista" na vida política
norte-americana mantém-se de suma importância. Hamilton foi o primeiro
secretário do Tesouro dos Estados Unidos e um dos principais conselheiros
políticos do presidente George Washington, a quem também esteve ligado John
Jay, o primeiro presidente da Corte Suprema. Madison, junto com Jefferson, liderou a formação do Partido
Republicano, pelo qual veio a ser eleito o quarto presidente dos Estados Unidos
em 1808.
O acordo entre os autores de
"O Federalista" não era absoluto e esteve diretamente relacionado aos
objetivos dos artigos: a defesa da ratificação da Constituição. Não concordavam entre si em vários pontos,
como também, em pontos específicos, tinham reservas quanto à Constituição
proposta. Concordavam, no entanto, que a Constituição elaborada pela Convenção
Federal oferecia um ordenamento político incontestavelmente superior ao vigente
sob os Artigos da Confederação. Por partilharem deste diagnóstico, e por
considerarem urgente para a sorte do país a adoção da nova Constituição, os
autores de "O Federalista" projetaram escrever uma série de artigos
onde a nova Constituição seria explicada e, ao mesmo tempo, refutadas as
principais objeções de seus adversários.
A filosofia política da época, em especial a exposta por Montesquieu,
era evocada pelos adversários da ratificação de uma nova constituição proposta.
Montesquieu, apontava para a
incompatibilidade entre governos populares (democráticos) e os tempos modernos.
Na fundamentação apontavam sobre a necessidade de manter grandes exércitos e a
predominância das preocupações com o bem-estar material, onde, faziam das
grandes monarquias a forma de governo mais adequada ao espírito dos tempos e
não uma republica democrática. Argumentavam também que as condições ideais exigidas pelos governos populares, um pequeno
território e cidadãos virtuosos, amantes da pátria e surdos aos interesses
materiais, não mais existiam. Se, por acaso, se formassem governos desta
natureza, seriam presas fáceis de seus vizinhos militarizados, como comprovava
a história européia.
O desafio teórico enfrentado por
"O Federalista" era o de desmentir os dogmas arraigados de uma longa
tradição. Tratava-se de demonstrar
que o espírito comercial da época não impedia a constituição de governos
populares e, tampouco, estes dependiam exclusivamente da virtude do povo ou
precisavam permanecer confinados a pequenos territórios (como argumentava
Montesquieu, você pode conferir Aqui). Os postulados dos
Federalistas são literalmente invertidos, aumentar o território e o número de
interesses são benéficos à sorte desta forma de governo. Em suma, pela
primeira vez, a teorização sobre os governos populares deixava de se mirar nos
exemplos da Antiguidade, iniciando-se, assim, sua teorização
eminentemente moderna.
O
moderno federalismo.
Um dos eixos estruturadores de
"O Federalista" é o ataque à fraqueza do governo central instituído
pelos Artigos da Confederação (no caso, o atual Estados Unidos, ainda era
subordinado a Inglaterra). Em realidade, segundo afirma Hamilton em "O
Federalista", n. 15, nem se chegou, propriamente, a criar um governo, uma
vez que estavam ausentes as condições mínimas a garantir sua existência
efetiva. Esta passagem esclarece o seu raciocínio:
“Como o Congresso não tinha poderes para
exigir o cumprimento das leis que baixava, cuja aplicação e punição dos
eventuais desobedientes ficava a cargo dos Estados, estas, a despeito do fato
de serem constitucionais, não passavam de "recomendações que os Estados
observavam ou ignoravam a seu bel-prazer".
A
única forma de criar um governo central, que realmente mereça o nome de
governo, seria capacitá-lo a exigir o cumprimento das normas dele emanadas. Para
que tal se verificasse, seria necessário que a União deixasse de se relacionar
apenas com os Estados e estendesse o seu raio de ação diretamente aos cidadãos.
Em suma, o governo central se relacionaria não apenas com outros países, mas
também com os estados membros que constituirá o País, sendo estes estados
membros independentes entre si, mas subordinado a União.
A experiência histórica demonstrava
que as confederações haviam sido levadas à ruína pelas razões
apresentadas por Hamilton (intende-se confederação, como sendo, um poder
centralizado, no qual não se permite nenhuma autonomia aos estados subjugados).
Insistir na formação de uma Confederação seria desconhecer as lições da
história e se prender às conjecturas de Montesquieu, que via nestas a
possibilidade de compatibilizar as qualidades positivas dos Estados grandes — a
força — com a dos pequenos — a liberdade. Portanto,
a Constituição proposta pelos Federalistas, defendia a criação de uma
nova forma de governo, até então não experimentada por qualquer povo ou
defendida por qualquer autor. A Constituição proposta, pelos Federalistas,
não era estritamente nacional ou federal, mas uma composição de ambos os
princípios.
O termo federal, como nomeamos hoje
esta forma de governo, entretanto, era até aquele momento, sinônimo de
confederação. A distinção ficou a
partir do ponto assinalado por Hamilton; enquanto em uma confederação o governo
central só se relaciona com Estados, cuja soberania interna permanece intacta,
em uma Federação esta ação se estende aos indivíduos, fazendo com que convivam
dois entes estatais de estatura diversa, com a órbita de ação dos Estados
definida pela Constituição da União. O federalismo nasce como um pacto
político entre os Estados, fruto de esforços teóricos e negociação política. Um
pacto político, digamos assim, fundante, pois, por seu intermédio, se constituí
aos Estados Unidos enquanto nação.
Inspirados na reflexão de
Montesquieu, calcada na história européia, os "Antifederalistas"
apontavam para os riscos à liberdade inerentes a um grande Estado, cujas características
os levava a se transformar em monarquias militarizadas. Frente a este quadro,
propunham a formação de três ou quatro confederações como forma de respeitar o
tamanho ideal dos governos populares. Hamilton,
ao contrário, detectava nesta proposta o germe da competição comercial entre as
diversas confederações. Para evitar as rivalidades comerciais, estas sim as
causadoras da militarização e do fortalecimento do executivo, defendia o pacto
federal. Este pacto favoreceria o desenvolvimento comercial dos Estados Unidos,
formando uma nação de grande extensão territorial que não dependeria de
grandes efetivos militares.
A
separação dos poderes e a natureza humana
"Mas
afinal, o que é o próprio governo senão o maior de todos os reflexos da
natureza humana? Se os homens fossem anjos, não seria necessário haver
governos."
Esta é praticamente a primeira
afirmação de Madison enquanto a natureza do indivíduos, uma visão negativa e
potencialmente negativa. Para
citar mais um exemplo, em "O Federalista" n. 6, Hamilton relembra que
nunca se deve perder de vista o fato de os homens serem "ambiciosos,
vingativos e rapaces". Segundo ele, pensar de modo diferente "seria
ignorar o curso uniforme dos acontecimentos humanos e desafiar a
experiência acumulada ao longo dos séculos''.
Trata-se
de um recurso de argumentação utilizado para justificar a necessidade de
criação do Estado. Controlar os detentores do poder porque, como observa
Madison, os homens não são governados por anjos, mas sim por outros homens, daí
porque seja necessário controlá-los. "Ao constituir-se um governo —
integrado por homens que terão autoridade sobre outros homens — a grande
dificuldade está em que se deve primeiro habilitar o governante a controlar os
governados e, depois, obrigá-lo a controlar-se a si mesmo.
"As estruturas internas do governo devem
ser estabelecidas de tal forma que funcionem como uma defesa contra a tendência
natural de que o poder venha a se tornar arbitrário e tirânico. Sendo o homem o
que é, segue-se que todo aquele que detiver o poder em suas mãos tende a dele
abusar.”
Como afirma Madison;
"não se nega que o poder é, por
natureza, usurpador, e que precisa ser eficazmente contido, a fim de que não
ultrapasse os limites que lhe foram fixados". ("O Federalista",
n. 48)
A
limitação do poder, dada esta sua natureza intrínseca, só pode ser obtida pela
contraposição a outro poder, isto é, o poder freando o poder. Neste ponto,
"O Federalista" se aproxima de Montesquieu. Estas reflexões, como é
sabido, fundamentam a teoria da separação dos poderes, enunciada por este
autor. Apesar de se apoiar expressamente em Montesquieu, a
exposição de Madison da teoria da separação dos poderes contém especificidades
que merecem ser notadas.
O governo misto e a diferença de “separação de poderes”.
Para a literatura política do
século XVIII, a Inglaterra era tomada como um caso comprobatório das qualidades
do "governo misto". Segundo esta teoria, quando as funções de governo são distribuídas por diferentes grupos
sociais — realeza, nobreza e povo —, o exercício do poder deixa de ser
prerrogativa exclusiva de qualquer um dos grupos, forçando-os à colaboração,
com o que a convivência civil é aprimorada e a liberdade preservada. O
"governo misto", portanto, não é o mesmo que a "separação dos
poderes", uma distribuição horizontal das três funções principais do
Estado — a legislativa, a executiva e a judiciária — por órgãos distintos e
autônomos. A correspondência entre o "governo misto" e a
"separação dos poderes" pode ocorrer desde que cada força social seja
responsável por uma das funções.
Por
razões óbvias, o governo misto, era uma solução descartada nos Estados Unidos, onde
as condições sociais para o "governo misto" estavam ausentes. Aliás,
este não deixou de ser um problema para os colonos em luta com a Inglaterra, em
geral, adeptos da teoria do "governo misto" como a mais eficaz defesa
para a liberdade.
Thomas Paine por exemplo, a
rejeitar a teoria do "governo misto", qualificando-a de um mito, ao
tempo que afirmavam que a verdadeira segurança para a liberdade de um povo
encontrava-se em sua virtude. (Ainda que essa ideia de se espera apenas pela
virtude, antes, já havia recebido varias criticas por diversos doutrinadores,
até mesmo por Montesquieu), Thomas Paine, miravam-se nos exemplos da
Antiguidade greco-romana, cujas condições, diziam, os americanos estariam a
reproduzir. Entretanto, este era um argumento típico de parcela das fileiras
"Antifederalistas", por contraditório que possa parecer, por este
caminho também se estruturavam críticas claramente antipopulares. Se a sorte
dos governos populares dependia exclusivamente da virtude do povo, os cidadãos
americanos já estavam demonstrando estar a perdê-la. Alguns assim, propunham a
volta à teoria do "governo misto", isto é, afirmavam que apenas pela
introdução de corretivos aristocráticos a liberdade poderia ser salva na
América.
"O Federalista" rejeitava
estas duas soluções apresentada, procurando encontrar novas bases para o
governo popular. Voltemos à separação dos poderes tal qual apresentada em
"O Federalista" e vejamos quais suas relações com o ponto apresentado
a cima:
A defesa da aplicação do princípio
da separação de poderes encontra-se
construída a partir de medidas constitucionais, garantias à autonomia dos
diferentes ramos de poder, postos em relação um com os outros para que possam
se controlar e frear mutuamente, referidas, em última análise, às
características nada virtuosas dos homens, seus interesses e ambições pessoais
por acumular poder. A ideia era a seguinte, "A ambição será incentivada para enfrentar a ambição, e os
interesses pessoais serão associados aos direitos constitucionais."
A
adoção do princípio da separação dos poderes justifica-se como uma forma de se
evitar a tirania, onde todos os poderes se concentram nas mesmas mãos. Os
diferentes ramos de poder precisam ser dotados de força suficiente para
resistir às ameaças uns dos outros, garantindo que cada um se mantenha dentro
dos limites fixados constitucionalmente. No entanto, um equilíbrio perfeito
entre estas forças opostas, possível no comportamento dos corpos regidos pelas
leis da mecânica, não encontra lugar em um governo (uma critica a ideia de
Montesquieu, que pretendia comprovar que era possível fazer com que leis
humanas, fosse tão precisas quanto leis físicas). “O Federalista” propunha que para cada forma de governo, haverá um
poder necessariamente mais forte, de onde partem as maiores ameaças à
liberdade. Em uma monarquia, tais ameaças partem do executivo, enquanto para as
repúblicas, o legislativo se constitui na maior ameaça à liberdade, já que é a
origem de todos os poderes e, em tese, pode alteraras leis que regem o
comportamento dos outros ramos de poder. Daí porque sejam necessárias medidas adicionais para frear o seu
poder. A instituição do Senado é defendida com este fim, uma segunda câmara
legislativa composta a partir de princípios diversos daqueles presentes na
formação da Câmara dos Deputados, sendo previsível que a ação de uma leve à
moderação da outra. Outra forma de deter o poder legislativo se obtém pelo
reforço dos outros poderes. O judiciário, necessariamente o ramo mais fraco
porque destituído de poder de iniciativa, merece cuidados especiais para que
sua autonomia seja garantida. Este é um ponto defendido com ênfase por
Hamilton, que chega, em passagens de "O
Federalista" n. 78, a atribuir à Corte Suprema o poder de interpretação
final sobre o significado da Constituição. Esta importante atribuição da Corte
Suprema, no entanto, não é defendida consistentemente por qualquer um dos três
autores e veio a ser incorporada posteriormente às prerrogativas próprias à
Corte Suprema.
As repúblicas e as facções.
"O Federalista" n. 10, de
autoria de James Madison, é considerado o artigo mais importante de toda a
série, merecendo as maiores atenções dos comentaristas. A razão desta
celebridade encontra-se em sua discussão a respeito do mal das facções e das
formas de enfrenta-lo. (grupos, distintos uns dos outros, com força na
sociedade e interesses próprios, não voltado para o bem comum geral da
população). Caracterizadas como a principal ameaça à sorte dos governos
populares, tidas como forças negativas, no que segue os ensinamentos de uma
sólida tradição, Madison inova ao defender que a sorte dos governos populares
não depende da eliminação das facções, mas sim de encontrar formas de
neutralizar os seus efeitos.
Montesquieu e Rousseau afirmavam
que a sobrevivência das democracias era uma função direta da virtude dos
cidadãos que a compunham. Sendo a virtude definida como a "renúncia a si
próprio" em nome do "amor pelas leis e pela pátria", sua
preservação estava na dependência direta da manutenção da igualdade social
entre os cidadãos. Trata-se de uma igualdade na frugalidade, já que o
luxo traria consigo, inevitavelmente, a ambição e os interesses particulares.
Para Madison, tais postulações estabeleciam que as democracias só poderiam
florescer onde as facções fossem eliminadas. Madison rejeita esta solução, tida
como não factível em um governo livre. As
causas das facções encontram-se semeadas na própria natureza humana, nascendo
do livre desenvolvimento de suas faculdades. A diversidade de crenças, opiniões
e de distribuição da propriedade decorre da liberdade dos homens de disporem de
seus próprios direitos. Vale observar que entre estes direitos, Madison destaca
o da propriedade, a principal fonte diferenciadora dos homens e, por isto
mesmo, a fonte mais comum e duradoura das facções. Proteger o direito de
autodeterminação dos homens, isto é, proteger a sua liberdade, é o objetivo
primordial dos governos, sua razão de ser. Neste ponto encontra-se
explicitado o comprometimento de Madison com o credo liberal. Busca-se constituir um governo limitado e
controlado para assegurar uma esfera própria para o livre desenvolvimento dos
indivíduos, em especial de suas atividades econômicas.
Se as facções são inevitáveis, o
problema passa a ser o de impedir que um dos diferentes interesses ou opiniões
presentes na sociedade venha a controlar o poder com vistas à promoção única e
exclusiva de seus objetivos. O princípio da decisão por maioria, regra
fundamental dos governos populares, passa a representar uma ameaça aos direitos
das facções minoritárias, já que elas precisam de um número maior de votação
para chegarem ao poder.
É
fato que à maioria das pessoas aplica-se o princípio da tendência natural ao
abuso do poder quando este não encontra freios diante de si, porém é o que
naturalmente tende a acontecer nas democracias puras, onde poucas facções se
defrontam e facilmente a majoritária controla todo o poder (por conseguir um
número maior de votos). Feita esta observação chega-se a um problema
paradoxal para a teorização da democracia: o maior risco de que ela degenere em
tirania radica-se no poder que confere à maioria. Observe que a
tendência de uma facção controlar o poder é totalmente possível, caso umas
delas venha a vencer as eleições, e observe que eleições é um das
caraterísticas das Republicas, de forma que não seria possível eliminar as
eleições, ou seja, não pode contraditar a regra definitória da forma de
governo, se o fizer, logicamente, o governo deixaria de ser republicano.
Vejamos o remédio proposto por Madison.
A raiz desta inversão de
expectativas, quanto as facções, deve-se à nova espécie de governo popular que
defendia: a república. A distinção
entre as repúblicas e as democracias puras traz vantagens à primeira em dois
pontos capitais. Primeiro, fazendo com que as funções de governo sejam
delegadas a um número menor de cidadãos e, segundo, aumentando a área e o
número de cidadãos sob a jurisdição de um único governo. À primeira vista, a
primeira distinção, ao instituir a representação, traz, automaticamente, as
respostas procuradas por Madison para soluciona o problema. Em função do
"filtro" que institui, entregando o leme do Estado a homens imunes
ao partidarismo, sempre aptos a discernir e optar pelos verdadeiros interesses
do povo, a representação eliminaria o mal das facções, no
entanto, seguir esta trilha é cair em uma armadilha do texto, é não
prestar atenção ao comentário seguinte de Madison, afirmando a probabilidade de
se verificar o resultado inverso, isto é, de que pessoas de espírito
faccioso e com propósitos sinistros conseguissem obter os votos do povo para
depois traí-lo. Segue que a representação, em si, não oferece as garantias
suficientes para sanar o mal das facções.
Como afirma o próprio Madison, à
segunda característica distintiva das repúblicas deve-se a principal
contribuição para evitar o mal das facções. Sob um território mais extenso e com um número maior de cidadãos
cresce o número de interesses em conflito, de tal sorte que ou não existe um
interesse que reúna a maioria dos cidadãos, ou, na pior das hipóteses, será
difícil que se organize para agir. Ou seja, através da multiplicação das
facções chega-se à sua neutralização recíproca, tornando impossível o controle
exclusivo do poder por uma facção. Impede-se, assim, que qualquer
interesse particular tenha condições de suprimir a liberdade.
Conforme afirma, a preocupação
central da legislação moderna é a de fornecer os meios para a coordenação dos
diferentes interesses em conflito. Levar à coordenação dos interesses é a marca
distintiva das repúblicas por oposição à violência do conflito entre facções
características das democracias populares. Ante
o bloqueio mútuo das partes, a coordenação aparece como a única alternativa
para decisão dos conflitos, o interesse geral se impondo como a única
alternativa. Segundo as próprias palavras de Madison.
“Em uma república com a extensão territorial
dos Estados Unidos e com a enorme variedade de interesses, partidos e seitas
que engloba, a coalizão de uma maioria da sociedade dificilmente poderia
ocorrer com base em quaisquer outros princípios que não os da justiça e do bem
comum.”
sexta-feira, 11 de julho de 2014
Niccolo Maquiavel - Aos amigos os favores, aos inimigos a lei.
![]() |
| Os que vencem não importa como vencem, nunca conquista a vergonha. |
Mais de quatro
séculos nos separam da época em que viveu Maquiavel. Muitos leram
e comentaram sua obra, mas um número consideravelmente maior de pessoas evoca
seu nome ou pelo menos os termos que aí têm sua origem. Maquiavélico e
maquiavelismo são adjetivo e substantivo que estão tanto no discurso erudito,
no debate político, quanto na fala do dia-a-dia. Seu uso extrapola o mundo da
política e habita sem nenhuma cerimónia o universo das relações privadas. Em
qualquer de suas acepções, porém, o maquiavelismo está associado à ideia de
perfídia, a um procedimento astucioso, velhaco, traiçoeiro. Estas expressões
pejorativas sobreviveram de certa forma incólumes no tempo e no espaço, apenas
alastrando-se da luta política para as desavenças do cotidiano. Assim, a
acusação que recai hoje sobre Maquiavel não difere substancialmente daquela que
lhe impingiu Shakespeare ao chamá-lo de "The Murderous", ou de sua
identificação com o diabo na era vitoriana, ou mesmo da incriminação que os
jesuítas faziam aos protestantes na época da Reforma, considerando-os
discípulos de Maquiavel. Como assinala Claude Lefort, em sua análise sobre o
uso abrangente multi direcional de tais acusações, o maquiavelismo serve a
todos os ódios, metamorfoseia-se de acordo com os acontecimentos, já que pode
ser apropriado por todos os envolvidos em disputa. É uma forma de desqualificar
o inimigo, apresentando-o sempre como a encarnação do mal. Personificando a
imoralidade, o jogo sujo e sem escrúpulos, o "maquiavelismo", ou
melhor, o "antimaquiavelismo" tornou-se mais forte do que Maquiavel.
É um mito que sobrevive independente do conhecimento do autor ou da obra onde
teve origem.
A contra face da
versão expressa no "autor maldito", responsabilizado por massacres e
por toda sorte de sordidez. Houve também um certa tentativa de desconstrução
deste retrato ao qual acorreram a filósofos da estatura de um Rousseau,
de um Spinoza, de um Hegel, para citarmos apenas os primeiros. Nesta
interpretação sustenta-se enfaticamente que Maquiavel discorreu sobre a
liberdade, ao oferecer preciosos conselhos para a sua conquista ou salvaguarda.
Rousseau, por exemplo, opondo-se aos intérpretes "superficiais ou
corrompidos" do autor florentino, que o qualificaram como mestre da
tirania e da perversidade, afirma: "Maquiavel, fingindo dar lições aos
Príncipes, deu grandes lições ao povo" {Do contrato social, livro 3, cap.
IV).
Maquiavel ora
apresentado como mestre da maldade, ora como o conselheiro que alerta os
dominados contra a tirania, quem era este homem capaz de provocar tanto ódio,
mas também tanto amor? Que ideias elaborou que o tornam o mais citado entre os
pensadores políticos, a ponto de suscitar as mais díspares interpretações, e de
sair das páginas dos livros eruditos para ocupar um lugar na fala mais vulgar?
Por que incitou tamanho temor, sendo sua obra mais conhecida colocada no Index
da Igreja, e por que continua a dar ensejo a tão fundos preconceitos?
As desventuras de
um florentino
Maquiavel nasceu
em Florença em 3 de maio de 1469, numa Itália "esplendorosa mas infeliz'',
no dizer do historiador Garin. A península era então constituída por uma série
de pequenos Estados, com regimes políticos, desenvolvimento económico e cultura
variados. Tratava-se, a rigor, de um verdadeiro mosaico, sujeito a conflitos
contínuos e alvo de constantes invasões por parte de estrangeiros. Até 1494,
graças aos esforços de Lourenço, o Magnífico, a península experimentou uma
certa tranquilidade. Cinco grandes Estados dominavam o mapa político: ao sul, o
reino de Nápoles, nas mãos dos Aragão; no centro, os Estados papais controlados
pela Igreja e a república de Florença, presidida pelos Médicis; ao norte, o
ducado de Milão e a república de Veneza. Nos últimos anos do século,
entretanto, a desordem e a instabilidade eram incontroláveis. Às dissensões
internas e entre regiões somaram-se as invasões das poderosas nações vizinhas,
França e Espanha. Assim, os Médicis são expulsos de Florença; acirram-se as
discórdias entre Milão e Nápoles; os domínios da Igreja passam a ser governados
por Alexandre VI, um papa espanhol da família Borgia, guiado por ambições sem
limites; o rei Carlos VIII, da França, invade a península e consegue dominá-la
de Norte a Sul. Pouco tempo depois, com a morte do papa Alexandre VI, o trono é
ocupado por Júlio II, que se alia primeiro aos franceses contra Veneza e em
seguida, em 1512, funda a Santa Liga contra a França. Neste cenário conturbado,
no qual a maior parte dos governantes não conseguia se manter no poder por um
período superior a dois meses, Maquiavel passou sua infância e adolescência.
Sua família não era nem aristocrática, nem rica. Seu pai, advogado, como um
típico renascentista, era um estudioso das humanidades, tendo se empenhado em
transmitir uma aprimorada educação clássica para seu filho. Dessa forma, com
orgulho, noticiava a um amigo que Nicolau, com apenas 12 anos, já redigia no
melhor estilo em latim, dominando a retórica greco-romana.
Como o próprio
Maquiavel afirmava seus textos são os que resultam de sua experiência prática e
do convívio com os clássicos. “O Príncipe” data dos anos de 1512 a 1513; Os
“Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio”, de 1513 a 1519; o livro
sobre a “Arte da guerra”, de 1519 a 1520; e, por último, sua “História de
Florença”, de 1520 a 1525. Ao lado destas publicações, escreveu a comédia “A
mandrágora”, considerada obra-prima do teatro italiano; uma biografia sobre
Castruccio Castracani e uma coleção de poesias e ensaios literários.
Depois da
redação de O príncipe, a vida de Maquiavel é marcada por uma contínua
alternância de esperanças e decepções. Para conseguir os favores dos Médicis
dedica-lhes seu livro e pede a intervenção de amigos. Os governantes são pouco
sensíveis aos apelos — para os tiranos ele é um republicano. Finalmente, em
1520, a Universidade de Florença, presidida pelo cardeal Júlio de Médicis,
encarrega-o de escrever sobre Florença. Desta incumbência nasce sua última obra
e também sua última frustração. Pois, com a queda dos Médicis em 1527 e a
restauração da república, Maquiavel, que imaginara terem assim findados seus
infortúnios, vê-se identificado pelos jovens republicanos como alguém que
possuía ligações com os tiranos depostos, já que deles recebera a tarefa de escrever
sobre sua cidade. Desta vez, viu-se vencido. Esgotaram-se suas forças. A
república considerou-o seu inimigo. Desgostoso, adoece e morre em junho.
A verdade efetiva
das coisas
O destino
determinou que eu não saiba discutir sobre a seda, nem sobre a lã; tampouco
sobre questões de lucro ou de perda. Minha missão é falar sobre o Estado. Será
preciso submeter-me à promessa de emudecer, ou terei que falar sobre ele.
(Carta a F. Vettori, de 13/03/1513.)
Este trecho de uma carta escrita por Maquiavel revela sua "pre-destinação" inarredável: falar sobre o Estado. De fato, sua preocupação em todas as suas obras é o Estado. Não o melhor Estado, aquele tantas vezes imaginado, mas que nunca existiu. Mas o Estado real, capaz de impor a ordem. Maquiavel rejeita a tradição idealista de Platão, Aristóteles e Santo Tomás de Aquino e segue a trilha inaugurada pelos historiadores antigos, como Tácito, Políbio, Tucídides e Tito Lívio. Seu ponto de partida e de chegada é a realidade concreta. Daí a ênfase na verdade efetiva das coisas. Esta é sua regra metodológica: ver e examinar a realidade tal como ela é e não como se gostaria que ela fosse. A substituição do reino do dever ser, que marcara a filosofia anterior, pelo reino do ser, da realidade, leva Maquiavel a se perguntar: como fazer reinar a ordem, como instaurar um Estado estável? O problema central de sua análise política é descobrir como pode ser resolvido o inevitável ciclo de estabilidade e caos.
Ao formular e
buscar resolver esta questão, Maquiavel provoca uma ruptura com o saber
repetido pelos séculos. Trata-se de uma indagação radical e de uma nova
articulação sobre o pensar e fazer política, que põe fim à ideia de uma ordem
natural e eterna. A ordem,
produto necessário da política, não é natural, nem a materialização de uma
vontade extraterrena, e tampouco resulta do jogo de dados do acaso. Ao
contrário, a ordem tem um imperativo: deve ser construída pelos homens para se
evitar o caos e a barbárie, e, uma vez alcançada, ela não será definitiva, pois
há sempre, em germe, o seu trabalho em negativo, isto é, a ameaça de que seja
desfeita. "Enveredando
por um caminho ainda não trilhado", como reconhece explicitamente nos
Discursos, o autor florentino reinterpreta a questão da política.
Ela é o resultado de feixes de forças, proveniente das açòes concretas dos homens em sociedade, ainda que nem todas as suas facetas venham do reino da racionalidade e sejam de imediato reconhecíveis. Ao perceber o que há de transitório e circunstancial no arranjo estabelecido em uma determinada ordem, monta um enigma para seus contemporâneos. Enigma que se recoloca incessantemente e que a cada significado encontrado remete a outra significação para além de si. Este pensamento em constante transmutação e fluxo, que determina seu curso pelo movimento da realidade, transformará Maquiavel num clássico da filosofia política, atraindo a atenção e esforços de compreensão de seus leitores de todos os tempos. Tem-se sempre a sensação de que é necessário ler, reler, e voltar a ler a obra e que são infindáveis as suas possibilidades de formalização. Sua armadilha é atraente — fala do poder que todos sentem, mas não conhecem. Porém, para conhecê-lo é preciso suportar a ideia da incerteza, da contingência, de que nada é estável e que o espaço da política se constitui e é regido por mecanismos distintos dos que norteiam a vida privada. E mais ainda: o mundo da política não leva ao céu, mas sua ausência é o pior dos infernos.
Por outro lado,
a forma que usa para expor suas ideias exige atenção. Não só porque recoloca e
problematiza velhos temas, mas sobretudo porque rediscute-os incessantemente,
obrigando o leitor a pôr sempre em xeque a primeira compreensão. Por isso,
qualquer tentativa de sistematizar os escritos de Maquiavel é sempre provisória
e sujeita a novas interpretações. Vale assim, para os seus escritos, a mesma
metodologia que usava para ler a realidade e, afinal, de há muito sua obra
deixou de ser apenas uma referência de erudição ilustrada. Pelo que significa e
tem significado nas práticas históricas é ela própria simultaneamente um
monumento e um instrumento político, retornando sempre como um enigma complexo
que só pode ser decifrado pela análise de sua presença concreta e sua venta
effettuale (verdade efetiva). Isto posto, ocupemo-nos do exame de alguns temas
vitais para a compreensão da intrincada construção do pensamento de Maquiavel.
E claro que este é apenas um ângulo possível num prisma multifacetado.
Natureza humana e
historia
Guiado pela
busca da "verdade efetiva", Maquiavel estuda a história e reavalia
sua experiência como funcionário do Estado. Seu
"diálogo" com os homens da antiguidade clássica e sua prática
levam-no a concluir que por toda parte, e em todos os tempos, pode-se observar
a presença de traços humanos imutáveis. Daí afirmar, os homens "são
ingratos, volúveis, simuladores, covardes ante os perigos, ávidos de
lucro" {O príncipe, cap. XVII). Estes atributos negativos compõem a
natureza humana e mostram que o conflito e a anarquia são desdobramentos necessários
dessas paixões e instintos malévolos. Por outro lado, sua reiterada permanência
em todas as épocas e sociedades transformam a história numa privilegiada fonte
de ensinamentos. Por isso, o estudo do passado não é um exercício de mera
erudição, nem a história um suceder de eventos em conformidade com os desígnios
divinos até que chegue o dia do juízo final, mas sim um desfile de fatos dos
quais se deve extrair as causas e os meios utilizados para enfrentar o caos
resultante da expressão da natureza humana. Desta forma, sustenta o pensador
florentino, aquele que estudar cuidadosamente o passado pode prever os
acontecimentos que se produzirão em cada Estado e utilizar os mesmos meios que
os empregados pelos antigos. Ou então, se não há mais os remédios que já foram empregados,
imaginar outros novos, segundo a semelhança dos acontecimentos. (Discursos,
livro I. cap. XXXIX.) A
história é cíclica, repete-se indefinidamente, já que não há meios absolutos
para "domesticar" a natureza humana. Assim, a ordem sucede à desordem
e esta, por sua vez, clama por uma nova ordem. Como, no entanto, é impossível
extinguir as paixões e os instintos humanos, o ciclos se repete. O que pode
variar — e nesta variação encontra-se o âmago da capacidade criadora humana e,
portanto, da política — são os tempos de duração das formas de convívio entre
os homens. O poder político tem, pois, uma origem mundana. Nasce da própria
"malignidade" que é intrínseca à natureza humana. Além disso, o poder
aparece como a única possibilidade de enfrentar o conflito, ainda que qualquer
forma de "domesticação" seja precária e transitória. Não há garantias de sua
permanência. A perversidade das paixões humanas sempre volta a se manifestar,
mesmo que tenha-permanecido oculta por algum tempo.
Para mudar tal
situação não é um ditador; é, mais propriamente, um fundador do Estado, um
agente da transição numa fase em que a nação se acha ameaçada de decomposição.
Quando, ao contrário, a sociedade já encontrou formas de equilíbrio, o poder
político cumpriu sua função regeneradora e "educadora", ela está
preparada para a República.
Neste regime, que por vezes o pensador florentino chama de liberdade, o povo é virtuoso, as instituições são estáveis e contemplam a dinâmica das relações sociais. Os conflitos são fonte de vigor, sinal de uma cidadania ativa, e portanto são desejáveis. Face à Itália de sua época — dividida, corrompida, sujeita às invasões externas — Maquiavel não tinha dúvidas: era necessário sua unificação e regeneração. Tais tarefas tornavam imprescindível o surgimento de um homem virtuoso capaz de fundar um Estado. Era preciso, enfim, um príncipe.
Anarquia x Principado
e Republica
À desordem
proveniente da imutável natureza humana, Maquiavel acresce um importante fator
social de instabilidade: a presença inevitável, em todas as sociedades, de duas
forças opostas, "uma das quais provém de não desejar o povo ser dominado
nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir
o povo" {O príncipe, cap. IX).
Note-se que uma das forças quer dominar, enquanto a outra não quer ser dominada. Se todos quisessem o domínio, a oposição seria resolvida pelo governo dos vitoriosos. Contudo, os vitoriosos não sufocam definitivamente os vencidos, pois estes permanecem não querendo o domínio. O problema político é então encontrar mecanismos que imponham a estabilidade das relações, que sustentem uma determinada correlação de forças. Maquiavel sugere que há basicamente duas respostas à anarquia decorrente da natureza humana e do confronto entre os grupos sociais:, o Principado e a República. A escolha de uma ou de outra forma institucional não depende de um mero ato de vontade ou de considerações abstratas e idealistas sobre o regime, mas da situação concreta. Assim, quando a nação encontra-se ameaçada de deterioração, quando a corrupção alastrou-se, é necessário um governo forte, que crie e coloque seus instrumentos de poder para inibir a vitalidade das forças desagregadoras e centrífugas. O príncipe.
Virtù X fortuna
A crença na
predestinação dominava há longo tempo. Este era um dogma que Maquiavel teria
que enfrentar, por mais fortes que fossem os rancores que atraísse contra si.
Afinal, a atividade política, tal como arquitetara, era uma prática do homem
livre de freios extraterrenos, do homem sujeito da história. Esta prática
exigia virtú, o domínio sobre a fortuna.
Para pensar a virtú e a fortuna mais uma vez Maquiavel recorre aos ensinamentos dos historiadores clássicos, buscando contrapô-los aos preceitos dominantes na Itália seiscentista. Para os antigos, a Fortuna não era uma força maligna inexorável. Ao contrário, sua imagem era a de uma deusa boa, uma aliada potencial, cuja simpatia era importante atrair. Esta deusa possuía os bens que todos os homens desejavam: a honra, a riqueza, a glória, o poder. Mas como fazer para que a deusa Fortuna nos favorecesse e não a outros, perguntavam-se os homens da antiguidade clássica? Era imprescindível seduzi-la, respondiam. Como se tratava de uma deusa que era também mulher, para atrair suas graças era necessário mostrar-se um homem de verdadeira virilidade, de inquestionável coragem. Assim, o homem que possuísse virtú no mais alto grau seria beneficiado com os presentes da cornucópia da Fortuna. Esta visão foi inteiramente derrotada com o triunfo do cristianismo. A boa deusa, disposta a ser seduzida, foi substituída por um "poder cego", inabalável, fechado a qualquer influência, que distribui seus bens de forma indiscriminada. A Fortuna não tem mais como símbolo a cornucópia, mas a roda do tempo, que gira indefinidamente sem que se possa descobrir o seu movimento. Nessa visão, os bens valorizados no período clássico nada são. O poder, a honra, a riqueza ou a glória não significam felicidade. Esta não se realiza no mundo terreno. O destino é uma força da providência divina e o homem sua vítima impotente. Maquiavel inicia o penúltimo capítulo de O príncipe referindo-se a esta crença na fatalidade e à impossibilidade dos homens alterarem o seu curso. Chega, inclusive, com certa ironia, a afirmar que se inclinou a concordar com essa opinião. No entanto, o desenrolar de sua exposição mostra-nos, com toda clareza, que se trata de uma concordância meramente estratégica. Concorda para poder desenvolver os argumentos da discordância. Assim, após admitir o império absoluto da Fortuna, reserva, poucas linhas a seguir, ao livre-arbítrio pelo menos o domínio da metade das ações humanas. E termina o capítulo demonstrando a possibilidade da virtú conquistar a fortuna.
Assim, Maquiavel
monta um cenário no qual a liberdade do homem é capaz de amortecer o suposto
poder incontrastável da Fortuna. Ou melhor dizendo, ao se indagar sobre a
possibilidade de se fazer uma aliança com a Fortuna, esta não é mais uma força
impiedosa, mas uma deusa boa, tal como era simbolizada pelos antigos. Ela é
mulher, deseja ser seduzida e está sempre pronta a entregar-se aos homens
bravos, corajosos, aqueles que demonstram ter virtú. Não cabe nesta imagem a
ideia da virtude cristã que prega uma bondade angelical alcançada pela
libertação das tentações terrenas, sempre à espera de recompensas no céu. Ao
contrário, o poder, a honra e a glória, típicas tentações mundanas, são bens
perseguidos e valorizados. O homem de virtú pode consegui-los e por eles luta.
Dessa forma, o poder que nasce da própria natureza humana e encontra seu
fundamento na força é redefinido. Não se trata mais apenas da força bruta, da
violência, mas da sabedoria no uso da força, da utilização virtuosa da força. O
governante não é, pois, simplesmente o mais forte — já que este tem condições
de conquistar mas não de se manter no poder —, mas sobretudo o que demonstra
possuir virtú, sendo assim capaz de manter o domínio adquirido e se não o amor,
pelo menos o respeito dos governados.
A partir destas
variáveis pode-se retornar, mais uma vez, ao início de O príncipe e dar um novo
significado à distinção aparentemente formal entre os principados hereditários
e os novos. Maquiavel sublinha que o poder se funda na força mas é necessário
virtú para se manter no poder; mais nos domínios recém-adquiridos do que
naqueles há longo tempo acostumados ao governo de um príncipe e sua família.
No entanto, nem
mesmo o principado hereditário é seguro. Sua advertência — não há garantias de
que o domínio permaneça — vale para todas as formas de organização do poder. Um governante virtuoso procurará
criar instituições que "facilitem" o domínio. Consequentemente, sem
virtú, sem boas leis, geradoras de boas instituições, e sem boas armas, um
poder rival poderá impor-se. Destes constrangimentos não escapam nem mesmo os
principados hereditários que pareciam a princípio tão seguros. Afora isto, como
sustentar a radical distinção entre os principados antigos e os novos, se ambos
têm igual origem — a força? A força explica o fundamento do poder, porém é a
posse de virtú a chave por excelência do sucesso do príncipe. Sucesso este que
tem uma medida política: a manutenção da conquista. O governante tem que se
mostrar capaz de resistir aos inimigos e aos golpes da sorte, "construindo
diques para que o rio não inunde a planície, arrasando tudo o que encontra em
seu caminho". O homem de virtú deve atrair os favores da cornucópia,
conseguindo, assim, a fama, a honra e a glória para si e a segurança para seus
governados. É desta perspectiva que ganha um novo sentido a discussão sobre as
qualidades do príncipe. Este deveria ser bom, honesto, liberal, cumpridor de
suas promessas, conforme rezam os mandamentos da virtude cristã? Maquiavel é
incisivo: há vícios que são virtudes. Não tema pois o príncipe que deseje se
manter no poder "incorrer no opróbrio dos defeitos mencionados, se tal for
indispensável para salvar o Estado". (O príncipe, cap. XV). Os ditames da
moralidade convencional podem significar sua ruína. Um príncipe sábio deve
guiar-se pela necessidade — "aprender os meios de não ser bom e a fazer
uso ou não deles, conforme as necessidades". Assim, a qualidade exigida do
príncipe que deseja semanter no poder é sobretudo a sabedoria de agir conforme
as circunstâncias. Devendo, contudo, aparentar possuir as qualidades
valorizadas pelos governados. O jogo entre a aparência e a essência sobrepõe-se
à distinção tradicional entre virtudes e vícios. A virtú política exige também
os vícios, assim como exige o reenquadramento da força. O agir virtuoso é um
agir como homem e como animal. Resulta de uma astuciosa combinação da
virilidade e da natureza animal. Quer como homem, quer como leão (para
amedrontar os lobos), quer como raposa (para conhecer os lobos), o que conta é
"o triunfo das dificuldades e a manutenção do Estado. Os meios para isso nunca deixarão de
ser julgados honrosos, e todos os aplaudirão"{O príncipe, cap. XVIII).
A política tem uma ética e uma lógica próprias. Maquiavel
descortina um horizonte para se pensar e fazer política que não se enquadra no
tradicional moralismo piedoso. A resistência à aceitação da radicalidade de
suas proposições é seguramente o que dá origem ao "maquiavélico". A
evidência fulgurante deste adjetivo acaba velando a riqueza das descobertas
substantivas. O mito, uma
constante em sua obra, é falado para ser desmistificado. Maquiavel não o aceita
como quer a tradição — algo naturalizado e eterno. Recupera no mito as questões
que aí jaziam adormecidas e pacificadas. E, ao fazer isto, subverte as
concepções acomodadas, de há muito
estabelecidas, instaurando a modernidade no pensar a
política. Ora, desmistificar tem sempre um alto risco. O cidadão
florentino pagou-o em vida e sua morte não lhe trouxe o descanso do esquecimento.
Transformado em mito, é novamente vitimizado.
O pensamento político moderno e critico, para decifrar
o enigma proposto em sua obra, precisa resgatá-lo sem preconceitos e
em sua verità effettuale. É o que se deve a Nicolau Maquiavel, o cidadão
sem fortuna, o intelectual de virtú.
sexta-feira, julho 11, 2014
quarta-feira, 9 de outubro de 2013
Étienne de La Boétie - Discurso Sobre a Servidão Voluntaria.
Étienne de La Boétie morreu aos
33 anos de idade, em 1563. Deixou sonetos, traduções de Xenofonte e Plutarco e
na idade de 18 anos escreveu o
“Discurso da Servidão Voluntária”, o primeiro e um dos mais vibrantes hinos à liberdade
dentre os que já se escreveram na historia. Apesar do discurso de Boétie ter sido escrito no
século XVI continua sendo uma reflexão que amplia a nossa consciência a
respeito da liberdade. A luta pela liberdade continua sendo o
principal destino do ser humano, apesar da
existência dos que aceitam uma servidão voluntária.
O Discurso, que no século XVI
Montaigne considerava difícil prefaciar, hoje em dia é ainda tristemente atual.
“O ser humano encontra-se em amarras auto-infligidas por toda a parte” como
dizia Manuel J. Gomes, importante tradutor de La Boétie para o português.
O nome de Étienne de La Boétie costuma ser associado ao eminente ensaísta Michel de Montaigne, devido à relação íntima de amizade que eles tinham. Mas, como alguns historiadores vieram a reconhecer, ele deveria ser lembrado como um dos filósofos políticos que mais influenciaram as futuras gerações, não apenas sendo um dos fundadores da filosofia política francesa, mas também pela relevância imemorial de muitas de suas visões teóricas
A importância de discutir as
colocações de Boétie pode ser centralizada na necessidade de mostrar que existe
a servidão quando ela é consentida e que
a natureza humana está associada à liberdade e não ao ato de ser escravo.
A liberdade é natural e a servidão um
comportamento não natural. Etienne de La Boétie ao escrever sua grande obra suscita
ideias a respeito das relações entre os súditos e o tirano. A obra abarca uma
análise do grande problema da questão da tirania e o por quais motivos os
indivíduos estabelecem uma relação de súdito voluntariamente.
Em seu raciocínio abstrato e universal, seu desenvolvimento de uma verdadeira filosofia política, e suas frequentes referências a antiguidade clássica, La Boétie seguiu o método dos escritores renascentistas, notadamente Nicolau Maquiavel. Havia, no entanto, uma diferença crucial: ao passo que Maquiavel pretendeu instruir o príncipe sobre como cimentar seu poder, La Boétie se dedicou a discutir maneiras de derrubá-lo e assim assegurar a liberdade dos indivíduos.
No entanto, o enfoque de La Boétie no raciocínio abstrato e nos direitos universais dos indivíduos, podem na verdade ser melhor caracterizados como um prenúncio do pensamento político do século XVIII. Conforme disse J. W. Allen, o Discurso foi um "ensaio sobre a liberdade, igualdade e fraternidade humanas naturais". O ensaio "serviu de apoio geral aos panfletários huguenotes ao insistir que a lei natural e os direitos naturais justificariam uma resistência forçosa contra os governos tiranos".
A liberdade
Salienta
Etienne que a liberdade é um dom natural, pois, entre os animais, ao serem
presos, opõem resistencia com suas garras, chifres, patas e bicos, demonstrando
o quanto prezam a liberdade. Quando são cativos evidenciam a perda da liberdade,
mostrando- nos que estão mais mortos do que vivos e continuam a viver para
lamentarem a liberdade perdida. A respeito dos homens, a natureza fez todos
iguais em aparência, sendo diferenciados nos dons, uns sendo mais fortes e
inteligentes e outros mais fracos e menos inteligentes, no entanto, a natureza
não colocou os homens em uma arena para os mais fortes e inteligentes dizimarem
os mais fracos. A natureza ao favorecer alguns e desfavorecendo outras pessoas
procura criar um campo de convivência estreitando as alianças integrando a
todos, dando a alguns a oportunidade de ajudar e outros a condição de receber ajuda. Diz Etienne que todas as coisas que
possui sentimento sentem a dor da sujeição e suspiram pela liberdade.
Estes trechos deixam claro que La Boétie se opõe fortemente a tirania e ao consentimento do povo a sua própria subjugação. Ele também deixa claro que essa oposição baseia-se numa teoria de lei natural e de direito natural à liberdade. Durante a infância, talvez devido ao fato de que a capacidade racional não foi completamente desenvolvida ainda, nós obedecemos nossos pais; mas quando crescemos, deveríamos seguir nossa própria razão, como indivíduos livres. Conforme diz La Boétie: "Se vivêssemos com os direitos que a natureza nos deu e com as lições que nos ensina, seriamos naturalmente obedientes aos pais, sujeitos à razão e servos de ninguém."
Assim
diz Etienne, que vistas bem as coisas, não há infelicidade maior do que estar
sujeito a um chefe; nunca se pode confiar na bondade dele e só dele depende o
ser mau quando assim lhe aprouver. Ter vários amos ou chefes é ter outros
tantos motivos para se ser extremamente desgraçado. Digno de espanto, ainda
maior e tão doloroso quanto
impressionante, é ver milhões de homens a servir, miseravelmente curvados ao
peso do jugo, esmagados não por uma força muito grande, mas aparentemente
dominados e encantados apenas pelo nome de um só homem cujo poder não deveria
assustá-los, visto que é um só, e cujas qualidades não deveriam prezar porque os
trata desumana e cruelmente.
Por
outro lado é justo amarmos a virtude, estimarmos as boas ações, ficarmos gratos
aos que fazem o bem, renunciarmos a certas comodidades para melhor honrarmos e
favorecermos aqueles a quem amamos e que o merecem. Assim também, quando os
habitantes de um país encontram uma personagem notável que dê provas de ter
sido previdente a governá-los, arrojado a defendê-los e cuidadoso a guiá-los,
passam a obedecer-lhe em tudo e a conceder-lhe certas prerrogativas; é uma
prática reprovável, porque vão acabar por afastá-lo da prática do bem e
empurrá-lo para o mal. Mas em tais casos julga-se que poderá vir sempre bem e
nunca mal de quem um dia nos fez bem. Etienne nos alerta claramente que dar
poderes de mais para um estado, mesmo ele alegando que estará fazendo o bem, na
verdade o que a sociedade estar a fazer é dar incentivos para o mesmo fazer o
mal.
Da Tirania
Opondo-se
a ordem natural surgem os tiranos que são de três espécies: os que chegam
pela força das armas, outros pela sucessão
hereditária e outros chegam ao poder pela eleição
do povo. Os que chegam ao poder pela guerra comportam-se como conquistadores,
subjugando o povo pelo poder das armas e apoderam de suas presas como se
tivessem direito. Os que nascem reis, nascidos e criados no sangue da tirania,
tratam os povos como se fossem servos hereditários, como quem lida com
escravos naturais. Os tiranos que chegaram ao poder pela vontade popular, logo
que assumem o governo, procuram permanecer como mandatários por todo o sempre,
impondo as suas vontades e ultrapassando em crueldade os outros tipos de
tiranos. Objetivando a conservação da tirania procuram, por todos os
meios possíveis, aumentar a servidão fazendo com que os seus súditos esqueçam completamente o que é liberdade, procedem como quem doma
touros. Os tiranos, sejam eles os que chegaram ao poder pelo uso das armas, ou
pela hereditariedade ou pelo voto utilizam o mesmo modo de reinar.
O
modo de reinar dos tiranos, depois que estão no poder, é oferecer ao povo
divertimento através de bordeis, tabernas e jogos públicos. Gratificando os
cinco sentidos de um povo é a forma mais fácil do tirano impor os seus
desejos. Comenta Etienne, em seu discurso, que atrair o pássaro com o apito ou
o peixe com a isca do anzol é mais difícil que atrair o povo para a
servidão, pois basta passar-lhes junto à boca um engodo insignificante. Os
povos ludibriados pela satisfação dos sentidos divertem-se com grande
prazer e para permanecerem vivendo no prazer habituam-se a servir com elevada
sinceridade. O imperador Nero foi um verdadeiro monstro na arte de governar, no
entanto, após sua morte o povo romano ficou com tanta pena (por se lembrar dos
seus jogos e festins) que pouco faltou para vestir de luto. Júlio César foi o
imperador que aboliu todas as leis e a liberdade do povo, governando com uma
crueldade selvagem, mas, depois de morto, o povo, que tinha ainda na boca o
sabor dos banquetes prestou-lhe inúmeras honrarias.
Etienne
comenta em seu discurso que até mesmo os tiranos se espantavam como o povo
pode suportar um homem que lhes faz mal; utilizando disfarces religiosos,
tomando aspecto de certas divindades e doando-lhes todo tipo de divertimento
para se protegerem da má vida que levam. Outro aspecto importante a ressaltar
a respeito dos tiranos é que eles não governam sozinhos, mas são
acompanhados por uma escória humana.
Os
tiranos são destruídos no dia em que o povo não servir mais a tirania, não
servir de instrumento do poder. O dia que o povo toma a decisão de nada fazer
a favor do tirano, a tirania desaparece sem ser preciso travar um combate
contra a minoria que está no governo. O povo deixa de ser esmagado quando
deixa de servir o poder que o esmaga. Quando o povo deixa de obedecer ao tirano
ele perde a vitalidade da mesma forma que a raiz sem umidade se torna um ramo
seco e morto. A partir do momento em que o povo toma a resolução de não mais servir ao tirano o colosso descomunal cai
por terra e se quebra porque lhe foi tirada a base.
"Ora o mais espantoso é sabermos que nem sequer é preciso combater esse tirano, não é preciso defendermos-nos dele. Ele será destruído no dia em que o país se recuse a servi-lo.Não é necessário tirar-lhe nada, basta que ninguém lhe dê coisa alguma. Não é preciso que o país faça coisa alguma em favor de si próprio, basta que não faça nada contra si próprio. São, pois, os povos que se deixam oprimir, que tudo fazem para serem esmagados, pois deixariam de ser no dia em que deixassem de servir. É o povo que se escraviza, que se decapita, que, podendo escolher entre ser livre e ser escravo, se decide pela falta de liberdade e prefere o jugo, é ele que aceita o seu mal, que o procura por todos os meios. Que mais é preciso para possuir a liberdade do que simplesmente desejá-la? Se basta um ato de vontade, se basta desejá-la, que nação há que a considere assim tão difícil? A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter. Esse que tanto vos humilha tem só dois olhos e duas mãos, tem um só corpo e nada possui que o mais ínfimo entre os ínfimos habitantes das vossas cidades não possua também; uma só coisa ele tem mais do que vós e é o poder de vos destruir, poder que vós lhe concedestes."
O celebrado e inovador apelo de La Boétie pela desobediência civil, pela resistência não violenta do povo como um método de se derrubar tiranias, origina-se diretamente a partir destas duas premissas vistas acima: o fato de que todo governo depende do consentimento das massas, e do valor elevado da liberdade natural. Pois se a tirania realmente depende do consentimento das massas, então o modo mais óbvio de destruí-la é simplesmente as massas retirarem este consentimento. O poder da tirania iria repentinamente entrar em um rápido colapso com esta revolução não violenta.
É
importante tomarmos conhecimento que o tirano existe devido à aceitação do povo, a tirania torna-se realidade somente enquanto o
povo prefere suporta-la e não deseja contrariar o soberano. O tirano não
tomaria conhecimento do que o povo faz se o povo não fosse o seu olho. O
tirano não maltrataria seu povo se o próprio povo não lhe emprestasse suas
mãos. O tirano não esmagaria o povo se o povo não lhe desse os seus
próprios pés. O tirano não teria poder se o povo não lhe tivesse dado o
referido poder, todo poder emana somente do povo e se existe tirano é porque o
povo o formatou. O tirano não perseguiria seu povo se o povo não fosse
conivente com ele. O tirano possui existência porque o povo encobre os que
roubam em nome do tirano e o povo é cúmplice dos assassinatos da própria
tirania. A tirania existe porque o povo é o traidor de si mesmo.
"É espantoso e impressionante ver milhões de homens ficarem curvados, esmagados e dominados não por uma força muito grande e sim apenas pelo nome de uma só pessoa cujo poder não deveria assustar o povo porque é um só homem. Tristeza é ver um número infinito de pessoas que não obedecem, mas servem ao tirano, não são governadas, mas tiranizadas e não possuem nenhum tipo de liberdade própria. Triste é um povo que suporta a pilhagem, as luxúrias, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, mas de um só homem. O povo que serve a um tirano é um povo covarde. É um fato estranho que poucos homens se deixem esmagar por um só, mas é inacreditável quando cem ou mil homens estão submissos a uma só pessoa e não se atrevem a desafiá-lo por covardia. Diante destas observações Etienne ressalta que os povos por covardia se deixam oprimir e que se tornam passivos, também por covardia."
A Servidão Voluntaria.
A covardia, materializada pelo desejo de servir
se enraizou impedindo a busca da liberdade, fazendo com que o povo não sinta
dor em servir, pois, o povo perdeu a consciência do que é liberdade. A causa
que levou o homem a servir passivamente é que as pessoas já nascem e são
criadas na servidão, são covardes por criação. O sistema faz com que robotizemos os nossos filhos de
tal maneira que eles possam ir para os locais da exploração totalmente narcotizados, não sentindo
arder nos corações o fogo da
liberdade, não sendo capazes de grandes ações.
Criamos
os nossos filhos para que os tiranos possam recrutá-los para a guerra e
conduzi-los ao matadouro e fazer deles instrumentos de sua cupidez e executores
das suas vinganças. O povo
subjugado cai em tão profundo esquecimento da liberdade que se torna
impossível o despertar para a autonomia, passando a servir com tanta prontidão
e boa vontade que parece que a liberdade nunca existiu. O tirano, a principio,
emprega todos os meios possíveis para o constrangimento do povo, mas, com o
passar dos anos e o nascimento de novas pessoas já cativas não conhecem a
liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem esforço e fazem de boa mente o que seus antepassados
tinham feito por obrigação. A nova geração nasce sob o jugo, é criada na servidão, sem condições de saber o que é liberdade e limita a viver
tal como nasceu tendo como natural à servidão. Dignos de pena são os que
nascem com a canga no pescoço e por
desconhecerem totalmente a liberdade não possuem consciência como é ruim
viver na escravidão. A liberdade é um bem tão grande e tão aprazível que
quando perdida tudo na vida perde o valor corrompido pela servidão.
Incrível
coisa é ver o povo, uma vez subjugado, cair em tão profundo esquecimento da
liberdade que não desperta nem a recupera; antes começa a servir com tanta prontidão
e boa vontade que parece ter perdido não a liberdade mas a servidão. É verdade
que, a princípio, serve com constrangimento e pela força; mas os que vêm
depois, como não conheceram a liberdade nem sabem o que ela seja, servem sem
esforço e fazem de boa mente o que seus antepassados tinham feito por
obrigação. Assim é: os homens nascem sob o jugo, são criados na servidão, sem
olharem para lá dela, limitam-se a viver tal como nasceram, nunca pensam ter
outro direito nem outro bem senão o que encontraram ao nascer, aceitam como
natural o estado que acharam à nascença. É natural no homem o ser livre e o
querer sê-lo; mas está igualmente na sua natureza ficar com certos hábitos que
a educação lhe dá. Diga-se, pois, que acaba por ser natural tudo o que o homem
obtém pela educação e pelo costume; mas da essência da sua natureza é o que lhe
vem da mesma natureza pura e não alterada; assim, a primeira razão da servidão
voluntária é o hábito:
Deste modo, a tendência humana natural de ser livre é finalmente solapada pela força do hábito, pois a razão deste dom inato, não importa o quão bom seja, se dissipa se não for encorajada, sendo que o ambiente sempre nos molda de sua maneira, seja ele qual for, sem levar em consideração os dons naturais. Assim, aqueles que nascem escravizados deveriam ser perdoados, "pois não tendo visto da liberdade sequer a sombra e dela não estando avisados, não percebem que ser escravos lhes é um mal...." Embora, em suma, "a natureza do homem é mesmo de ser franco e querer sê-lo" mas o caráter de uma pessoa "naturalmente conserva a feição que a educação lhe dá." La Boétie conclui que "a primeira razão da servidão voluntária é o costume". As pessoas dizem que sempre foram súditas, que seus pais viveram assim; pensam que são obrigados a suportar o mal; convencem-se com exemplos e, ao longo do tempo, elas próprias constroem o poder dos que as tiranizam; mas como em verdade os anos nunca dão o direito de malfazer, aumentam a injúria.
Outro método de se induzir o consentimento é puramente ideológico: ludibriar as massas fazendo-as acreditar que o governante tirano é sábio, justo e benevolente. Assim, La Boétie aponta que os imperadores romanos assumiram o título antigo de Tribuna do Povo, porque o conceito havia galgado aceitação entre o povo como sendo a representação do guardião de suas liberdades.
Consequentemente, a concepção do despotismo sob o manto da velha forma liberal. Nos tempos modernos, acrescenta La Boétie, os governantes apresentam uma versão mais sofisticada desta propaganda, pois eles "hoje não fazem mal algum, mesmo importante, sem antes fazer passar algumas palavras bonitas sobre o bem público e a tranquilidade geral." Reforçar a propaganda ideológica é uma mistificação deliberada: "Os reis da Assíria e também, depois deles, os de Média só apresentavam-se em público o mais tarde que podiam, para fazer a populaça se perguntar se não eram algo mais que homens." Símbolos de mistério e magia eram entrelaçados ao redor da Coroa, para "suscitar em seus súditos alguma reverência e admiração. ... Dá pena ouvir falar de quantas coisas os tiranos do passado utilizavam para fundar sua tirania, de quantas mesquinharias se serviam, encontrando essa populaça sempre às ordens ." Por vezes os tiranos chegavam ao ponto de imputar a si mesmos o status de divindade: "queriam muito pôr a religião na frente, como anteparo, e se possível, tomar emprestada alguma amostra da divindade para o mantimento de sua miserável vida." Deste modo, "os tiranos que, a fim de se manterem, se esforçam para acostumar o povo a eles não só por obediência e servidão, mas também por devoção."
Ideologia enganosa, mistério, circos; somando-se a estes recursos puramente de propagandas, outro recurso é usado pelos governantes para obterem o consentimento de seus súditos: a compra de benefícios materiais, tanto o pão quanto o circo. A distribuição destas benesses ao povo é também um método, muito astucioso, de enganar o povo e fazê-lo acreditar que ele se beneficia com o governo tirânico. Eles não percebem que na verdade eles estão recebendo uma pequena parte da riqueza que lhes foi tirada previamente pelos governantes. E La Boétie prossegue mencionando os casos das tiranias monstruosas de Nero e Júlio César, sendo que a morte destes dois ditadores foi seguida de um profundo período de luto do povo, devido as supostas liberalidades de suas tiranias.
Como pode uma tirania ser derrubada se ela está cimentada na sociedade pelo costume, o privilégio e a propaganda? Como o povo pode ser levado ao ponto em que poderá decidir retirar seu consentimento? Em primeiro lugar, afirma La Boétie, nem todas as pessoas serão enganadas ou serão irrecuperavelmente submetidas à submissão pela força do hábito. Sempre há uma elite mais sensitiva que vai entender a realidade da situação; "sempre se encontra alguns mais bem nascidos que sentem o peso do jugo e não podem se impedir de sacudi-lo". São estas pessoas que, em contraste com a "grande populaça", possuem "entendimento nítido e espírito clarividente", e "tendo a cabeça por si mesmos bem feita, ainda a poliram com o estudo e o saber". Este tipo de gente nunca realmente desaparece do mundo: "Estes, mesmo que a liberdade estivesse inteiramente perdida e de todo fora do mundo, a imaginam e a sentem em seu espírito".
Por causa do perigo representado por estas pessoas esclarecidas, os tiranos sempre tentam suprimir a educação em seus domínios, e desta forma, aqueles que "conservaram a devoção à liberdade, por mais numerosos que sejam, porque não se conhecem; sob o tirano, é-lhes tirada toda a liberdade de fazer, de falar, e quase de pensar: todos se tornam singulares em suas fantasias". Neste ponto, La Boétie se antecipa aos analistas modernos do totalitarismo, como Hannah Arendt. Mas há esperanças; pois a elite ainda existe, e, novamente indo buscar exemplos na antiguidade, La Boétie sustenta que líderes heróicos podem surgir que "vendo seu país maltratado e em más mãos, tendo decidido com boa intenção, íntegra e não dissimulada, libertá-lo". Então, a tarefa óbvia desta corajosa elite com capacidade de discernimento é formar a vanguarda do movimento de resistência revolucionária contra o déspota. Através do processo de educação, irão ensinar a verdade ao povo, irão devolver as pessoas os conhecimentos sobre as bênçãos da liberdade e sobre os mitos e ilusões promovidos pelo estado.
Apesar dele não dizer isso diretamente, La Boétie dá a impressão de que considera que a disseminação do conhecimento entre o povo não vai apenas fazer com que as massas se recusem a continuar consentindo, como também vão colaborar de maneira incalculável com seu andamento ao separar a parte da burocracia privilegiada insatisfeita do resto, criando uma divisão interna.
Não existe melhor forma de concluir uma argumentação sobre o conteúdo do notável Discurso da Servidão Voluntária do que mencionando o insight de Mesnard de que "tanto para La Boétie, quanto para Maquiavel, a autoridade só pode ser baseada na aceitação dos súditos: exceto que um ensina o príncipe como compelir essa condescendência, enquanto que o outro revela ao povo o poder que consistiria sua recusa."
O Discurso de La Boétie possui importância fundamental para os leitores atuais — importância essa que vai muito além do simples prazer de ler esta grande e seminal obra de filosofia política, ou, para os libertários, de ler o primeiro grande filósofo político libertário do mundo ocidental. Pois La Boétie trata claramente do problema que todos os libertários — na verdade, todos os oponentes do despotismo — consideram particularmente complicado: o problema da estratégia. Diante do devastador e aparentemente insuperável poder do estado moderno, como um mundo livre e bem diferente pode ser alcançado? Como é possível sair da situação A e ir para a B, de um mundo de tirania para um mundo de liberdade? Exatamente por causa de sua metodologia abstrata e atemporal, La Boétie oferece insights vitais para este eterno problema. Etienne nos mostra que ainda há esperança ainda que pequena;
“Sempre haverá umas poucas almas melhor nascidas do que outras, que sentem o peso do jugo e não evitam sacudi-lo, almas que nunca se acostumam à sujeição e que, à imitação de Ulisses, o qual por mar e terra procurava avistar o fumo de sua casa, nunca se esquecem dos seus privilégios naturais, nem dos antepassados e de sua antiga condição. São esses dotados de claro entendimento e espírito clarividente; não se limitam, como o vulgo, a olhar só para o que têm adiante dos pés, olham também para trás e para frente e, estudando bem as coisas passadas, conhecem melhor o futuro e o presente.”
“Esses, ainda quando a liberdade se perdesse por completo e desaparecesse para sempre do mundo, não deixariam de imaginá-la, de senti-la e saborear; para eles, a servidão, por muito bem disfarçada que lhes aparecesse, nunca seria coisa boa.”
La Boétie também sugere a importância de se encontrar e encorajar alas insatisfeitas do aparato governamental, e de estimulá-las a romperem com o poder e apoiar a oposição ao despotismo. Embora este esteja longe de ser o principal papel de um movimento libertário, todos os movimentos de sucesso contra a tirania do estado na história se utilizaram dessa insatisfação e dos conflitos internos, especialmente em seus estágios mais avançados.
La Boétie foi também o primeiro teórico a, depois de enfatizar a importância do consentimento, passar a enfatizar a importância estratégica de se derrubar a tirania ao fazer com que o povo retire este consentimento. Consequentemente, La Boétie foi o primeiro teórico da estratégia popular de desobediência civil não violenta das ordens e extorsões do estado. É difícil fazer considerações de ordem prática sobre tal tática, até porque ela foi muito pouco utilizada.
É premente que tentemos, como afirma o cientista político “...compreender o mal imanente à autoridade e recuperar a confiança na liberdade.”
Liberdade esta sem os adjetivos limitadores de sua expressão máxima, como nos indica o pensamento político do jovem estudante francês, La Boétie:
Há vinte anos, quando a historiadora Cecilia Kenyon escreveu sobre os Anti-Federalistas que se opunham à adoção da Constituição americana, os desprezou por serem "homens sem fé" — quer dizer, sem fé num governo central forte.Hoje em dia já é difícil encontrar alguém com este tipo de fé cega no governo. Numa época como a que estamos vivendo, pensadores como Étienne de La Boétie são muito mais relevantes, e muito mais genuinamente modernos, do que foram por todo o século que passou.
"Decidi-vos a não servir mais, e serei livres."
quarta-feira, outubro 09, 2013
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